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“Está no seu macarrão e pão”: 1 em cada 2 franceses está contaminado por esse veneno invisível.

Mulher franzindo a testa enquanto tenta comer espaguete quente em cozinha iluminada.

Um relatório da Anses (Agência Nacional de Segurança Sanitária da Alimentação, do Meio Ambiente e do Trabalho, da França) acende um alerta sobre a exposição da população francesa ao cádmio, um metal pesado cancerígeno que aparece de forma ampla na alimentação do dia a dia. Na raiz do problema estão práticas agrícolas acumuladas ao longo de décadas e regras que não foram rígidas o suficiente para conter a contaminação.

O cádmio não tem cheiro, não tem sabor e passa despercebido. Ainda assim, ele pode estar presente em alimentos comuns - do pão às massas, das batatas a diversos vegetais. De acordo com o documento, quase um em cada dois adultos na França (47,6%) já ultrapassa os limites de risco estabelecidos para esse metal pesado classificado como cancerígeno. É um dado que preocupa pela escala e pela dificuldade de o indivíduo perceber o problema no cotidiano.

O que é o cádmio, afinal?

O cádmio é um metal pesado naturalmente existente na crosta terrestre, assim como o chumbo e o mercúrio. Descoberto em 1817, ele é classificado pela Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (IARC/CIRC) como cancerígeno comprovado para seres humanos (Grupo 1) - o nível mais alto dessa classificação.

Na indústria, o cádmio aparece na produção de baterias recarregáveis, pigmentos, revestimentos anticorrosivos e alguns plásticos. Contudo, o caminho mais relevante para a exposição populacional, segundo o relatório, é outro: a agricultura. Isso porque fertilizantes minerais fosfatados, produzidos a partir de rochas sedimentares que podem ser naturalmente ricas em cádmio, vão depositando o metal no solo cultivado aos poucos - safra após safra, ano após ano - e, assim, ele entra na cadeia alimentar.

Uma vez ingerido, o organismo tem grande dificuldade de se livrar do cádmio. A meia-vida biológica (tempo estimado para o corpo eliminar metade da quantidade presente) fica entre 10 e 30 anos. O metal tende a se concentrar principalmente nos rins e no fígado, podendo depois se redistribuir para ossos, pâncreas e outros órgãos essenciais.

Até o momento, não existe antídoto nem um tratamento capaz de acelerar de forma eficaz a eliminação do cádmio. Na prática, o que funciona é reduzir a exposição - isto é, apostar em prevenção.

Por que o cádmio é tão perigoso: ele se acumula no corpo

O que torna o cádmio especialmente preocupante é o seu comportamento ao longo do tempo: em vez de ser eliminado rapidamente, ele se acumula de forma progressiva no organismo durante décadas. Diferentemente de outras substâncias nocivas, que o corpo consegue expulsar com mais facilidade, o cádmio permanece.

Ele pode se depositar em rins, ossos, coração e pâncreas, elevando o risco de câncer de bexiga, próstata e mama. Também contribui para enfraquecimento do esqueleto, com osteoporose mais precoce, e pode lesionar lentamente os rins até resultar em doença renal crónica. O agravante é que tudo isso pode evoluir sem sinais claros para a pessoa exposta.

Para não fumantes, o relatório indica que a alimentação responde por 98% da contaminação. O tabaco adiciona uma fonte importante de exposição (cada cigarro pode conter entre 1 e 2 microgramas de cádmio, e parte relevante pode ser absorvida pelos pulmões), mas, para a maioria da população, o principal vetor é o que se come.

Entre os alimentos mais associados à exposição estão cereais e derivados (pão, massas, farinha), além de batatas, raízes e algumas sementes oleaginosas. Como esses itens fazem parte da rotina alimentar de praticamente todas as famílias - independentemente de renda -, isso ajuda a explicar por que a exposição se torna tão disseminada.

Também vale uma ressalva importante: quem consome alimentos orgânicos não está automaticamente protegido. Embora fertilizantes minerais fosfatados sejam proibidos na agricultura orgânica, muitos solos hoje cultivados como orgânicos podem ter recebido, no passado, contaminação por décadas. Assim, os vegetais cultivados nessas áreas podem apresentar níveis de cádmio semelhantes aos da produção convencional.

Quem deve responder pelo problema do cádmio?

Diante de uma contaminação tão abrangente e estrutural, a margem de ação do consumidor é limitada. Ajustes como variar o cardápio, evitar concentração excessiva dos itens mais associados e reduzir o acúmulo de fontes podem ajudar, mas não resolvem um problema que está ligado ao modo como o sistema alimentar foi organizado.

O relatório aponta que o cádmio no prato é consequência de décadas de agricultura intensiva, com uso amplo de fertilizantes minerais fosfatados sem a mesma atenção para o teor de contaminantes. Soma-se a isso o facto de que, por muito tempo, a regulamentação europeia manteve limites permissivos, ou demorou a endurecê-los apesar de alertas científicos repetidos.

Entre as recomendações destacadas pela Anses estão: tornar as regras para fertilizantes mais rigorosas, reduzir o teor máximo permitido de cádmio, acelerar o desenvolvimento de variedades vegetais que acumulam menos esse metal e reforçar o monitoramento da contaminação de solos agrícolas ao longo do tempo. Em outras palavras: são frentes que exigem resposta de governos e setor agrícola, não apenas de escolhas individuais na compra de alimentos.

O documento ainda levanta uma questão central: por que a França apresenta níveis tão elevados de contaminação em comparação com alguns países vizinhos? Os hábitos alimentares pesam, mas o relatório sugere que decisões agrícolas e regulatórias também tiveram um papel determinante ao longo dos anos. A partir daqui, torna-se difícil alegar desconhecimento do risco.

Monitoramento e caminhos complementares para reduzir a exposição

Além das mudanças na regulação e na agricultura, uma estratégia relevante é ampliar a vigilância contínua: acompanhar a contaminação no solo, medir teores em alimentos de grande consumo e investir em biomonitoramento (por exemplo, avaliação de marcadores em estudos populacionais) para observar tendências e identificar grupos mais vulneráveis. Isso ajuda a orientar políticas públicas com base em dados e a avaliar se medidas adotadas estão, de facto, reduzindo a carga de exposição ao longo dos anos.

No nível individual, sem deslocar a responsabilidade do problema sistémico, alguns cuidados podem ser úteis como apoio: não fumar reduz uma fonte adicional de cádmio; e uma alimentação mais diversa pode diminuir a chance de depender sempre dos mesmos itens com maior contribuição média para a exposição. Ainda assim, o núcleo da solução permanece no controle do contaminante “na origem” - isto é, no solo e nos insumos agrícolas que alimentam toda a cadeia.

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