A guerra no Irã não mexe apenas com o preço da gasolina. O impacto se espalha por toda a cadeia de abastecimento global - e a conta tende a pesar no bolso do cidadão comum.
O estopim mais imediato está no fechamento, pelo Irã, do Estreito de Ormuz, por onde passam todos os meses cerca de 4 milhões de toneladas de nafta. Esse derivado do petróleo refinado é a matéria-prima central de praticamente toda a indústria petroquímica do planeta.
Vale lembrar o que isso significa na prática: a petroquímica é o ramo da indústria química que transforma petróleo e gás em moléculas-base, usadas depois para produzir uma quantidade enorme de itens do dia a dia - plásticos, fibras e tecidos sintéticos, solventes, borracha, medicamentos, cosméticos, tintas e muito mais. No fim das contas, mais de 90% dos objetos ao nosso redor dependem disso direta ou indiretamente.
Cadeia de abastecimento da indústria petroquímica já operava no limite
O problema é que, mesmo antes de o conflito no Irã explodir, a cadeia de abastecimento já vinha pressionada. Isso era especialmente visível na Europa, onde a indústria petroquímica ainda não tinha absorvido totalmente os sucessivos choques de energia dos últimos anos - com destaque para 2022.
Na Alemanha, considerada a locomotiva do continente nesse setor, produção, preços e vendas já registravam queda no quarto trimestre de 2025. A VCI, federação alemã do segmento que reúne mais de 2.000 empresas e mais de meio milhão de empregos, já vinha alertando para o risco antes mesmo dos primeiros ataques, como lembrou a BFMTV.
Com a guerra, a tendência se acelerou. Desde o início das hostilidades, o petróleo subiu cerca de 40% e o gás, 50%. Para produtores químicos europeus, a conta do gás natural pode elevar os custos em aproximadamente 3 bilhões de euros por ano se a alta persistir. Nesse cenário, diversos participantes asiáticos - além da gigante LyondellBasell - acionaram a cláusula de força maior, um instrumento que permite suspender entregas sem penalidade quando um evento fora de controle inviabiliza o cumprimento dos contratos.
Além do encarecimento direto da energia, a falta de nafta tende a gerar um efeito dominó em insumos petroquímicos intermediários, reduzindo a oferta de resinas e componentes usados por indústrias de embalagens, autopeças, construção e eletroeletrônicos. Quando a disponibilidade cai, a competição por cargas aumenta, e os reajustes costumam aparecer em cascata ao longo dos elos de fabricação.
Estreito de Ormuz, nafta e o efeito dominó: o choque deve aparecer em dois meses
As consequências projetadas são severas. O aumento de preços deve ocorrer, mas com um atraso de cerca de dois meses, tempo necessário para o choque avançar pelas etapas de produção e pelos estoques existentes. E não se trata apenas de combustível: a diferença tende a surgir também nas prateleiras do varejo, na farmácia, na oficina mecânica e até na compra de roupas.
No curto prazo, empresas podem tentar mitigar parte do impacto com alternativas como redirecionamento de rotas, maior uso de estoques e substituição parcial de matérias-primas - mas essas saídas têm limites e, em geral, custam mais. Outra frente que costuma ganhar relevância é o aumento do uso de conteúdo reciclado em plásticos e embalagens, embora a escala necessária para compensar uma ruptura de nafta seja difícil de atingir rapidamente.
Por enquanto, é impossível cravar por quanto tempo a situação vai durar. Se o conflito se prolongar, a base industrial europeia pode ficar ainda mais fragilizada, elevando o risco para empregos na química e em setores que dependem diretamente da petroquímica.
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