Gestão no trabalho remoto: produtividade sem presença
Numa terça-feira cinzenta de fevereiro, um gestor que conheço encarou a grade de quadradinhos mudos no Zoom e soltou, entre a brincadeira e o pânico: “Alguém aí está trabalhando de verdade?”. A equipe riu, algumas câmaras apareceram e sumiram, e um cachorro latiu ao longe, em algum canto da casa de alguém. Em seguida, todos voltaram às suas planilhas, às conversas no Slack e aos grupos privados no WhatsApp.
Horas depois, vieram os números: metas cumpridas, clientes satisfeitos, nenhum incêndio para apagar. No papel, tinha sido um ótimo dia. Para ele, contudo, a sensação era de ter perdido alguma coisa - algo que ele não sabia bem como chamar.
Mais tarde, ele me contou que o trabalho remoto o fazia se sentir “como um professor substituto que ninguém escuta”. Não porque a equipe fosse preguiçosa, mas porque ele não conseguia ver o que estava acontecendo de fato no dia a dia, nem captar aqueles sinais pequenos que, no presencial, costumam aparecer sem esforço - o clima da sala, as dúvidas engolidas, as tensões disfarçadas, o cansaço que vai se acumulando.
Uma parte desse desconforto tem menos a ver com desempenho e mais com visibilidade: quando a entrega vem por planilhas e mensagens, a liderança deixa de “ver o trabalho” e passa a enxergar apenas os rastros dele. Para alguns gestores, isso é libertador; para outros, parece uma perda de controle - mesmo quando as metas são batidas e os clientes seguem felizes.
Também há um lado emocional e cultural: no Brasil, o ambiente de trabalho costuma ser um espaço de convivência intensa, onde conversas rápidas no corredor, piadas e microinterações funcionam como cola social. No remoto, essa cola precisa ser recriada de propósito - com rituais simples, como alinhamentos curtos, combinados claros sobre comunicação e momentos de conversa que não sejam apenas sobre tarefas - para que a equipe não vire apenas um conjunto de quadradinhos silenciosos na tela.
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