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Recomendações da semana: romances, não ficção e um livro infantil

Mesa de madeira com pilhas de livros e duas pessoas segurando livros, com sofá ao fundo.

Entre histórias que atravessam oceanos, thrillers colados nas manchetes e memórias familiares de partir o coração, esta seleção reúne cinco títulos que exploram amizade, luto, política, solidão e imaginação - com espaço também para uma leitura infantil que amplia a curiosidade sobre as aves.

Vale notar como, em vários destes livros, a mesma pergunta aparece por caminhos diferentes: o que nos sustenta quando tudo desmorona - uma cidade após um furacão, uma vida depois de uma perda, ou uma relação que começa a fugir do controle?


Ficção

1. Debaixo d’Água, de Tara Menon

Alternando entre uma pequena ilha diante da costa da Tailândia e a cidade de Nova York, Debaixo d’Água acompanha duas tragédias naturais - o tsunami de 2004 e o furacão Sandy, em 2012 - e o luto que se espalha a partir delas. Mesmo quando a protagonista, Marissa, é empurrada para circunstâncias devastadoras, o livro encontra calor na ligação com Arielle, a amiga que ela trata como irmã de alma.

Menon descreve com precisão como amizades femininas podem ser centrais para a identidade de alguém, não apenas um “apoio” lateral. E há um encanto especial nas cenas na costa tailandesa: a escrita é tão vívida que dá a sensação de estar na água junto de Marissa e Arielle, acompanhando até as arraias-manta. Como estreia, o romance cria uma afeição genuína pelas personagens - e a impressão fica por muito tempo depois da última página.

2. Juíza Stone, de James Patterson e Viola Davis

Um thriller com cara de “livro do momento”, Juíza Stone parte de debates nacionais sobre aborto, racismo e política para construir a nova colaboração de celebridades de James Patterson - desta vez, com a atriz e produtora Viola Davis. Nos últimos anos, esse formato já rendeu parcerias de alto perfil, inclusive com o ex-presidente dos EUA Bill Clinton e a cantora Dolly Parton.

Aqui, a trama gira em torno de um caso explosivo, conduzido por uma juíza negra pioneira no Alabama: uma enfermeira é presa após interromper a gravidez de uma menina de 13 anos. No contexto do “Sul profundo” dos EUA, isso configura crime, e o processo vira uma obsessão nacional - ao mesmo tempo que reabre feridas do passado da própria Stone. A experiência de Patterson aparece no ritmo: é um livro que flui fácil e convida a leitura acelerada. Em plena era de guerra cultural, a história é oportuna e traz algumas reviravoltas inesperadas, ainda que, em certos momentos, pareça desenhada para virar adaptação em plataforma de streaming. Por outro lado, a prosa frequentemente exagera nas explicações, e o desfecho soa um pouco “pensado para agradar a plateia” demais para o clima social de 2026.

3. Fisgadas, de Asako Yuzuki (tradução de Polly Barton)

No livro seguinte ao sucesso estrondoso Butter, Asako Yuzuki apresenta Eriko e Shoko, duas mulheres de Tóquio que, até então, passaram pela vida sem manter amizades femininas. Elas se aproximam quando Eriko - privilegiada, extremamente eficiente e habituada a vencer - cria um encontro supostamente casual com Shoko, que ganhou notoriedade on-line graças a um blog onde relata sua rotina como “dona de casa preguiçosa”.

Fã devotada, Eriko passa a acreditar que as duas estão destinadas a ser melhores amigas. Fisgadas retoma temas que também atravessavam Butter, especialmente as cobranças impostas às mulheres no Japão contemporâneo. Em diversos trechos, Yuzuki aborda com delicadeza a solidão intensa apesar do êxito profissional, o terror de ver outras pessoas “andando mais rápido” na vida e a dúvida incômoda sobre quem talvez não consiga se conectar de verdade com ninguém. Ainda assim, o romance tropeça no motor principal: com o tempo, a obsessão total de Eriko por Shoko - e o comportamento cada vez mais insano que vem junto - perde camadas, deixa de ser sutil e acaba cansando.


Não ficção

4. Nós Somos Um ao Outro, de Jess Mills

Em Nós Somos Um ao Outro, Jess Mills relata de forma comovente o último ano de vida da mãe, Tessa Jowell, parlamentar britânica. O texto é direto, cru no sentimento, e encara a realidade do luto sem adornos - justamente por isso, toca fundo. Mills organiza o período a partir de um contraste marcante: poucas semanas antes de descobrirem o tumor cerebral da mãe, ela havia dado à luz seu primeiro filho, vivendo, ao mesmo tempo, a chegada e a despedida - um lembrete constante do ciclo da vida.

Ao falar da mãe, dos meses dilacerantes que antecederam a morte e do isolamento que sentiu na própria dor, Mills transforma uma experiência íntima em algo reconhecível. E, embora o tema seja pesado, o livro não se limita à escuridão: aos poucos, ela também aponta para a possibilidade de esperança e alegria, mesmo depois do abalo sísmico que é perder a mãe.


Livro infantil da semana

5. A Pena Mágica, de Julia Donaldson (ilustrações de Catherine Rayner)

Julia Donaldson é lembrada por leituras barulhentas e cheias de energia, como O Grúfalo e Vassoura Voando, mas também domina histórias mais quietas, emocionalmente atentas e suavemente educativas - caso de O Carvalho e As Bonecas de Papel. A Pena Mágica entra nessa segunda linha com naturalidade.

A protagonista, Susanna, apaixonada por pássaros, encontra uma pena encantada que lhe dá a capacidade de entender o que as aves estão “conversando” em seus cantos. Essa habilidade vira uma vantagem quando ela atravessa o mar e chega a um reino onde as árvores das aves estão ameaçadas pelo machado. As ilustrações de Catherine Rayner são deslumbrantes e, além disso, muito fiéis: dá para brincar de identificar espécies e ampliar o repertório da família para além dos passarinhos mais comuns no quintal. O incômodo é que, em dois pontos, a narrativa dá saltos tão bruscos que dá vontade de conferir se alguma página ficou para trás. Talvez chamar o livro de “conto de fadas” funcione, em parte, como justificativa para essas quebras estranhas; ainda assim, no conjunto, é uma leitura encantadora - sobretudo para crianças interessadas nas aves que aparecem do lado de fora da janela.


Aproveitar leituras tão diferentes lado a lado também ajuda a perceber o que cada gênero faz melhor: a ficção cria empatia e nos coloca dentro de outras vidas; a não ficção organiza o real para que ele seja suportável; e o livro infantil abre portas para observar o mundo com mais atenção - inclusive a natureza, que atravessa mais de um título desta lista.

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