Pesquisadores identificaram um período de inversão do campo magnético da Terra que ocorreu de forma incomumente lenta há cerca de 40 milhões de anos - um resultado que reacende dúvidas importantes sobre quanto tempo essas reversões realmente levam e como poderíamos ser afetados quando ocorrer a próxima.
Em escalas de tempo geológicas, as inversões do campo magnético são consideradas relativamente frequentes. Estima-se que tenham ocorrido por volta de 540 reversões nos últimos 170 milhões de anos, e há indícios de que esse tipo de fenômeno vem acontecendo há bilhões de anos.
Inversão do campo magnético da Terra há 40 milhões de anos: tempos muito acima do esperado
O que chama a atenção, porém, é que por volta de 40 milhões de anos atrás algo parece ter fugido do padrão. A equipa internacional concluiu que uma transição nesse período durou cerca de 18.000 anos, enquanto outra levou pelo menos 70.000 anos - muito mais do que a duração típica de aproximadamente 10.000 anos que os cientistas costumam considerar “normal”.
“Esta descoberta revelou um processo de reversão extraordinariamente prolongado, desafiando o entendimento convencional e deixando-nos genuinamente surpreendidos”, escreveu o autor principal e paleomagnetista Yuhji Yamamoto, da Universidade de Kochi, no Japão.
“A variabilidade na duração das reversões revelada por este estudo reflete as propriedades dinâmicas intrínsecas do geodínamo da Terra e fornece evidência empírica de que as reversões geomagnéticas podem durar significativamente mais do que a duração de 10.000 anos amplamente assumida.”
Como a equipa encontrou sinais dessas inversões do campo magnético
Para chegar a essas conclusões, os cientistas analisaram um núcleo de sedimentos retirado de uma área no Atlântico Norte, ao largo da costa de Newfoundland (Canadá). Os registos magnéticos preservados nesses sedimentos - fixados em cristais minúsculos - funcionam como um arquivo natural, indicando a direção do campo magnético terrestre ao longo de períodos muito extensos.
Neste caso, o foco foi uma camada específica com 8 metros de espessura (de cima a baixo), representando parte do período Eoceno. Nessa faixa, foi identificada uma mudança clara de polaridade, mas distribuída por uma porção muito maior do núcleo do que o esperado.
Duas inversões e a possibilidade de durações ainda maiores
Dentro desse intervalo, foram detectadas duas inversões do campo magnético: uma com duração aproximada de 18.000 anos e outra de 70.000 anos. Além disso, modelagens computacionais indicaram que episódios semelhantes poderiam, em teoria, estender-se por até 130.000 anos em alguns cenários - embora algo assim ainda não tenha sido observado no registo geológico.
O que causa as inversões do campo magnético
Essas inversões são impulsionadas por mudanças no núcleo externo da Terra, formado por ferro e níquel líquidos, com cerca de 2.200 km de espessura. Embora essa camada esteja sempre em movimento, por vezes o sistema torna-se instável o suficiente para que os polos magnéticos mudem de posição.
A Terra não “vira de cabeça para baixo”, mas o norte magnético passa a tornar-se sul magnético, e vice-versa. Se você dependesse de uma bússola, ela acabaria apontando para o lado oposto - depois de dezenas de milhares de anos em que a orientação seria, no mínimo, confusa.
Reversões mais “bagunçadas”: ressaltos e variabilidade
Outro ponto relevante é que essas inversões identificadas não foram apenas longas: elas também foram mais irregulares e variáveis do que a equipa esperava. Os dados mostraram vários “ressaltos”, momentos em que o campo magnético pareceu hesitar e “voltar atrás” antes de seguir a transição, algo consistente com o que se observou na reversão mais recente da Terra, a reversão Brunhes–Matuyama.
“A ocorrência de múltiplos ressaltos não é sem precedentes: este comportamento também é reportado para a reversão Brunhes–Matuyama”, escreveram os autores no artigo.
“Sugerimos que isso pode ser mais comum e que as reversões de polaridade são eventos inerentemente complexos, se não parcialmente caóticos.”
O caso Brunhes–Matuyama reforça a ideia de reversões prolongadas
A reversão Brunhes–Matuyama, ocorrida há cerca de 775.000 anos, sustenta a hipótese de que processos longos podem ser mais frequentes do que se pensava. Um estudo de 2019 concluiu que essa inversão levou cerca de 22.000 anos para se completar - sugerindo que reversões demoradas talvez sejam a regra, e não a exceção.
Por que a próxima inversão do campo magnético importa
Quando a próxima inversão acontecer, precisaremos estar preparados. Uma das consequências possíveis é que, durante o processo, a Terra pode ficar com muito menos proteção contra radiação e atividade geomagnética vindas do espaço.
Se essa fase de maior exposição durar dezenas de milhares de anos a mais do que se supunha, isso muda o tipo de planeamento necessário. Em princípio, pode haver impactos que vão desde espécies animais até sistemas climáticos - embora ainda sejam necessárias mais pesquisas para definir quais efeitos ocorreriam e com que intensidade.
“Basicamente, isso significa que estamos expondo, em especial, as latitudes mais altas, mas também o planeta inteiro, a taxas maiores e por durações maiores dessa radiação cósmica”, afirmou o paleomagnetista Peter Lippert, da Universidade de Utah.
“Portanto, é lógico esperar taxas mais elevadas de mutação genética. Pode haver erosão atmosférica.”
O que vale acompanhar daqui para a frente
Além dos efeitos potenciais sobre a vida e a atmosfera, reversões prolongadas levantam questões práticas para a sociedade moderna. Sistemas dependentes de orientação e magnetismo - como navegação, mapeamento e algumas infraestruturas sensíveis a tempestades geomagnéticas - podem exigir estratégias de adaptação se o campo enfraquecer e permanecer instável por longos períodos.
Também é importante lembrar que uma inversão não é um evento instantâneo: trata-se de uma transição com fases intermediárias, e a complexidade observada (com “ressaltos” e variações) sugere que previsões simples podem falhar. Melhorar modelos do geodínamo e ampliar registos sedimentares e vulcânicos em diferentes regiões do planeta serão passos fundamentais para refinar o que sabemos sobre a duração e o comportamento das próximas inversões do campo magnético.
A pesquisa foi publicada na revista Communications Earth & Environment.
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