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O clone de Zuckerberg e a nova aposta da Meta para invadir ainda mais a vida privada

Homem sentado no sofá usa smartphone com videoconferência, TV e dispositivos tecnológicos ao fundo.

O grande Zuck passou as últimas duas décadas tentando nos convencer de que entregar a vida íntima a uma multinacional da Califórnia era uma espécie de realização pessoal. Evidentemente, isso não bastou: agora a ideia é ir ainda mais longe.

Entre 2007 e 2012, centenas de milhões de pessoas criaram uma conta no Facebook. Naquele momento, a plataforma parecia tão inofensiva que entregamos a ela quase tudo: data de nascimento, local de trabalho, estado civil e fotos pessoais. Compartilhamos esses dados sem cobrar nada e, sem perceber, passamos a financiar a plataforma ao nos tornarmos seu principal recurso explorável. Não ter conta no Facebook significava aceitar o papel de fantasma social, recusando uma oferta que, na época, era muito difícil de rejeitar. O resto da história você conhece: em 2021, o Facebook virou Meta, uma troca de identidade pensada para disfarçar uma máquina de coleta de dados ainda mais invasiva.

Mark Zuckerberg já está pensando na próxima etapa e, como bom vendedor, quer testá-la em si mesmo. Segundo o Financial Times, a Meta trabalha ativamente no desenvolvimento de um avatar digital fotorealista de seu CEO, treinado com seus tiques de linguagem, seu tom de voz, suas posições públicas e sua “reflexão recente sobre as estratégias da empresa”. Uma versão de IA de Zuckerberg, criada para interagir com os funcionários em seu lugar, responder às perguntas deles, oferecer retorno e fazê-los se “sentir mais próximos do fundador”.

Zuckerberg como cobaia da Meta

Zuckerberg não quer um chatbot qualquer com sua cara, capaz apenas de responder alguns e-mails e fazer figuração: isso seria ambição de menos, entende? Para entender o que a Meta pretende construir, é preciso voltar três anos, a 2023. Naquele ano, a empresa lançou uma série de personagens de IA acessíveis pelo Instagram e pelo Messenger do Facebook: assistentes conversacionais com personalidades simuladas, alguns inspirados em celebridades como Snoop Dogg ou Paris Hilton. Outros eram criados pelos próprios usuários por meio do AI Studio, uma ferramenta que a plataforma havia disponibilizado para criadores.

O projeto teve relativo sucesso, embora ainda parecesse simples demais para o gosto de Zuckerberg, que já tinha reparado no apelo do Character AI entre os jovens: permitir que as pessoas conversem com entidades que parecem gente de verdade e acabam fazendo companhia como se fossem gente de verdade. O grande sonho da Meta era esse, uma forma de quebrar a última barreira da vida privada: a intimidade da conversa espontânea.

Conhecendo a obsessão do homem por personalização extrema e por vender apego como produto, a etapa seguinte era praticamente óbvia. Era preciso tornar esses personagens fotorealistas e suficientemente convincentes para que os usuários esquecessem, um pouco mais, que estavam confiando seus segredos a uma máquina de publicidade. Para chegar lá, a Meta comprou no ano passado duas empresas especializadas em síntese de voz, a PlayAI e a WaveForms, e desde então vem trabalhando para reduzir o poder de processamento necessário para que esses avatares respondam sem atraso perceptível.

O clone de IA que a empresa desenvolve seria, nesse sentido, o produto principal de uma infraestrutura que já está pronta. Para Zuckerberg, usar a si mesmo como primeiro caso de uso é ao mesmo tempo um teste em escala real e uma estratégia comercial: se o fundador da Meta tem sua réplica digital, por que você não teria a sua?

Meta-morfose: o clone de Zuckerberg e a próxima fronteira

Se você quiser o seu clone, vai precisar se expor mais um pouco e baixar ainda mais a guarda: entregar sua voz, suas fotos, suas frases características e suas posições públicas. A partir desses dados, um modelo vai reconstruir você para interagir em seu lugar com as pessoas ao seu redor. A Meta ainda não anunciou uma data para o lançamento desse recurso.

A empresa informou, por outro lado, que a expansão da funcionalidade dependerá do êxito do experimento com o clone de Zuckerberg, algo que já deixa parte dos funcionários desconfortáveis internamente. Há quem tema que essa demonstração pelo exemplo seja apenas o começo de uma reestruturação - isto é, uma onda de demissões.

Na prática, a Meta já vem pressionando os empregados a adotar ferramentas agentivas e, nas últimas semanas, impôs diversas avaliações em que gerentes de produto são convidados a demonstrar domínio de IA em diferentes exercícios técnicos. Tudo isso sem que a companhia tenha considerado necessário explicar o que aconteceria com quem não passasse.

Essa combinação diz bastante sobre o momento atual da empresa: de um lado, um CEO transformado em protótipo; de outro, trabalhadores estimulados a automatizar e documentar os próprios processos. A mensagem implícita é fácil de entender. Quando a tecnologia passa a reproduzir a liderança e, ao mesmo tempo, medir a eficiência da equipe, a fronteira entre inovação e substituição fica perigosamente tênue.

Também vale notar o efeito cultural desse tipo de projeto. Avatares cada vez mais realistas não servem apenas para responder mensagens ou ocupar salas virtuais; eles podem normalizar uma relação em que identidade, fala e presença deixam de ser atributos humanos e passam a ser ativos reutilizáveis. Em ambientes corporativos, isso tende a reforçar a vigilância, a padronização do comportamento e a lógica de que tudo - inclusive a personalidade - deve ser otimizável.

Recomeçando do início

Vamos retomar tudo desde o começo: a Meta está construindo um avatar de seu CEO capaz de substituí-lo nas interações com seus funcionários e, ao mesmo tempo, pede a esses mesmos funcionários que registrem e automatizem seus próprios processos de trabalho. O que poderia dar errado? Seria preciso muita ingenuidade para não perceber o fio que une essas duas iniciativas.

Claro, talvez estejamos sendo um pouco maldosos: a Meta negou qualquer relação entre as avaliações técnicas internas e eventuais demissões. No devido tempo, a empresa também garantiu que os dados do Facebook serviriam apenas para melhorar sua experiência de uso, além de talvez outras 47 promessas que jamais cumpriu... Difícil enxergar algo diferente de uma repetição do passado, não?

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