Um espaço de experiência de um novo tipo vai abrir em Montreal, e tudo indica que a proposta vai mexer com os nervos tanto quanto a própria série. Viver uma distopia por dentro: o sonho de qualquer pessoa que já foi fã de Black Mirror.
Se você passou horas na Netflix acompanhando, entre fascínio e desconforto, o universo de Charlie Brooker, criador de Black Mirror, agora finalmente poderá atravessar a quarta parede. A gigante da produção Banijay, detentora dos direitos mundiais da antologia, lançou sua nova divisão Banijay Live Studio para levar a distopia para fora das telas. Com apoio da experiência técnica em realidade virtual da empresa Univrse, o grupo vai inaugurar em Montreal uma experiência de realidade virtual total chamada “Black Mirror Experience”.
Montreal, aliás, parece um cenário bastante adequado para esse tipo de projeto. A cidade vem se consolidando como um polo de iniciativas que misturam cultura, tecnologia e participação do público, e a chegada de uma atração inspirada em Black Mirror reforça justamente essa vocação. Em vez de apenas assistir a uma história, a proposta é entrar nela e sentir, no próprio corpo, a pressão de um sistema que responde a cada gesto.
Bem-vindo a Phaethon: uma hora para perder o controle
Durante uma hora, você é lançado no ambiente de Phaethon, uma multinacional tecnológica fictícia que, como acontece nas melhores distopias, soa assustadoramente plausível. No espaço, a empresa apresenta seu LifeAgent, um companheiro robótico turbinado por inteligência artificial e projetado para prever seus menores desejos. O robô funciona como peça narrativa, mas o motor do jogo por trás da experiência é real. Logo na entrada, é feito um escaneamento biométrico completo do seu corpo para sincronizar seu avatar aos seus movimentos.
Essa captura física é o eixo central da imersão: a máquina “vê” seu corpo para projetá-lo no showroom. “Assim que ele enxerga através dos seus olhos, sabe exatamente como ajudar… mesmo que você não tenha pedido”, explica o estúdio. Na prática, a dinâmica consiste em manipular objetos virtuais dentro de um espaço físico real, ao mesmo tempo em que você interage com a inteligência artificial do LifeAgent.
A experiência foi pensada para ser altamente interativa e menos linear do que um escape room tradicional, já que o enredo se ajusta em tempo real ao seu comportamento físico e às suas reações às solicitações do LifeAgent. Sensores instalados na arena analisam sua postura e seu tempo de resposta para disparar sequências narrativas específicas, tornando cada sessão diferente conforme você aceite ou rejeite as sugestões da máquina. É um pouco perturbador, mas totalmente coerente com a trajetória criativa de Brooker.
Para quem gosta de ficção científica psicológica, esse tipo de proposta vai além do susto ou do efeito visual. O interesse está justamente na inversão de papéis: em vez de observar um sistema controlando pessoas na ficção, o visitante passa a experimentar na pele como é ser monitorado, interpretado e empurrado para determinadas escolhas. É esse incômodo calculado que dá força ao projeto.
Para participar, é preciso ter no mínimo 12 anos, e a visita pode ser feita sozinho ou em grupo, com até seis pessoas. A Black Mirror Experience acontecerá nas instalações da Infinity Experiences, empresa baseada em Montreal especializada na criação e na distribuição de experiências imersivas em grande escala. Quem quiser se aventurar deve entrar na lista de espera no site oficial; a venda de ingressos será aberta em 21 de abril. Essas são as informações práticas.
O mais interessante, olhando com atenção, é perceber o que a Banijay tenta alcançar com isso: trata-se, no fundo, do auge da ironia metanarrativa. Usar o que há de mais avançado em tecnologia para mergulhar em uma crítica à própria tecnologia, transformando o espectador em um objeto de estudo fictício para o mesmo sistema que ele supostamente critica. A ideia funciona muito bem dentro dessa lógica, em total sintonia com a filosofia criativa de Brooker. Vale lembrar que os dados biométricos coletados durante as sessões não podem ser acessados por empresas terceiras nem reutilizados pela Banijay Live Studio, em conformidade com a legislação de Quebec.
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