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Carl Pei e o possível fim dos apps no smartphone

Pessoa usando smartphone com ícones de aplicativos brilhando, em cafeteria com outras pessoas usando celulares ao fundo.

Há anos, tudo gira em torno de apps: banco, bilhetes, redes sociais, streaming - para cada tarefa, surge um ícone diferente na tela. Agora, um executivo conhecido do setor de celulares afirma que esse modelo está perto do fim. O motivo seria a inteligência artificial, que já não se limita a escrever textos, mas também consegue executar ações reais em dispositivos.

Uma fabricante de smartphone aponta o fim lento dos apps

Carl Pei, fundador da marca de smartphones Nothing e cofundador da OnePlus, apresentou uma previsão ousada no festival de tecnologia SXSW: os apps tradicionais não teriam futuro no longo prazo. Não de uma hora para outra, mas de forma estrutural.

Pei alerta: quem depende quase totalmente de um único app para sustentar seu negócio está apoiado em uma base instável.

Segundo ele, os sistemas de IA evoluem muito rápido e ficam cada vez melhores em compreender instruções e transformar essas ordens em ações por conta própria. Em vez de abrir dez aplicativos diferentes e tocar em vários botões, uma única IA central poderia coordenar tudo no futuro.

Como a IA poderia reorganizar o uso do smartphone no dia a dia

Até agora, boa parte das tarefas segue o mesmo roteiro: abrir o app, entrar na conta, digitar, deslizar, confirmar. Para Pei, esse formato já não combina com um cenário em que assistentes de IA assumem cada vez mais funções sozinhos.

O exemplo que ele descreve é mais ou menos assim:

  • Você diz à IA: “Compre para mim a passagem de trem mais barata para Berlim na sexta-feira, com partida depois das 16h.”
  • A IA consulta sua agenda, verifica os serviços que você prefere e reserva sozinha o bilhete adequado.
  • Você recebe apenas a confirmação - sem passar por três apps de viagem diferentes.

Para quem usa, o foco deixaria de ser o app em si e passaria para instruções e conversas com um assistente central. A interação deixaria de ocorrer por ícones, menus e botões e passaria a acontecer por voz ou por comandos curtos de texto.

Por que “bots de IA com função de tocar na tela” não resolvem

Hoje, várias empresas já testam os chamados agentes de IA que imitam o comportamento humano no smartphone: eles “tocam” virtualmente na tela, rolam páginas, abrem aplicativos e preenchem formulários. Pei rejeita exatamente essa abordagem.

“O futuro não está em um agente de IA imitar uma interface de usuário humana. É preciso uma interface própria, amiga das máquinas”, seria, em essência, a mensagem dele.

O raciocínio é que, se a IA finge ser uma pessoa apertando botões, tudo continua desnecessariamente complexo e sujeito a falhas. Em vez disso, os serviços deveriam criar acessos diretos para agentes de IA, por meio dos quais eles possam trocar dados e acionar ações de maneira estruturada e segura.

APIs, conexões MPC e o que os desenvolvedores precisam observar

Em termos técnicos, a proposta de Pei aponta para um velho conhecido: as interfaces de programação de aplicações, ou APIs. Muitos serviços grandes já oferecem isso, mas normalmente para outras empresas e desenvolvedores, e menos para agentes gerais de IA.

Pei defende que as empresas reformulem suas ofertas para que assistentes inteligentes possam conversar diretamente com os serviços. Dois termos entram nessa discussão:

  • APIs: acessos claramente definidos pelos quais um software pode usar de forma objetiva funções de um serviço, como “reservar bilhete” ou “consultar saldo”.
  • Conexões MPC (computação multipartes): métodos criptográficos em que várias partes realizam cálculos em conjunto sem revelar todos os dados por completo - algo importante para segurança e privacidade.

A lógica é simples: em vez de a IA sair clicando aleatoriamente pela interface, ela se comunicaria com o serviço por uma espécie de “atalho técnico secreto”. Isso reduziria reservas erradas, aumentaria a segurança e aceleraria os processos.

Carl Pei, APIs e os vencedores e perdedores dessa mudança

Se Pei estiver certo, haverá vencedores e perdedores bem claros:

Possíveis vencedores Possíveis perdedores
Serviços com APIs abertas e bem documentadas Startups cujo único diferencial é uma interface de app bonita
Fornecedores de infraestrutura para agentes de IA Agências de apps que apostam quase só em design de interface
Usuários que preferem fluxos simples, guiados por voz Empresas que mantêm os usuários “presos” em menus complicados

Para muitas empresas jovens, essa previsão é delicada: quem constrói “apenas” um app com visual bonito, sem tecnologia mais profunda por trás, pode se tornar facilmente substituível. O valor passaria a estar nos serviços que se integram de forma fluida com agentes de IA.

Como a nossa relação com a tecnologia mudaria

Um uso do smartphone centrado em IA organizaria a rotina de um jeito bastante diferente. Em vez de 50 ícones na tela inicial, talvez exista um acesso único a um assistente pessoal que cuide da maior parte das tarefas digitais.

Alguns exemplos práticos são fáceis de imaginar:

  • “Monte para mim três treinos para a próxima semana e reserve aulas compatíveis na minha academia.”
  • “Peça meu pacote padrão do mercado, mas troque leite por bebida de aveia.”
  • “Transforme minhas últimas contas de restaurante em um orçamento mensal.”

Em todos esses casos, o assistente precisa acessar serviços diferentes: academia, supermercado, banco, notas. Em vez de abrir cada app separadamente, a IA usaria interfaces para alcançar as funções necessárias.

Riscos, dúvidas abertas e o que os usuários devem observar

Por mais atraente que seja a ideia de falar apenas com um assistente inteligente, depender de um sistema central de IA também traz riscos. Quem controla esse assistente? Quais dados ele coleta? Que prioridades ele adota quando há várias opções possíveis?

Privacidade e transparência viram, então, questões centrais. Se uma IA reserva bilhetes e faz compras por conta própria, ela inevitavelmente conhece hábitos, locais frequentados, preferências e limites financeiros. O usuário precisa ter controle sobre quais serviços são conectados e quais permissões são concedidas.

Também ficará interessante observar o papel dos próprios fabricantes de smartphones. Eles vão apostar em um assistente próprio que reúna tudo - como já se vê hoje em iniciativas iniciais com Google Assistant, Siri ou soluções parecidas com ChatGPT? Ou vão abrir seus aparelhos de propósito para que diferentes assistentes funcionem em paralelo?

Por que os apps não vão desaparecer de um dia para o outro

Apesar de todas as visões, ninguém desliga o modelo de apps de um dia para o outro. Muita gente gosta de aplicativos específicos, como editores de foto, jogos ou ferramentas especializadas, nos quais a interação por toque continua divertida e útil.

O mais provável é uma mudança gradual:

  1. No curto prazo, as funções de IA passam a complementar os apps existentes, por exemplo com assistentes inteligentes dentro do próprio aplicativo.
  2. No médio prazo, surgem mais serviços usados principalmente por APIs e agentes de IA, com apenas uma interface mínima.
  3. No longo prazo, a atenção se desloca para poucos assistentes centrais, enquanto muitos apps individuais ficam em segundo plano.

Ou seja, os apps tendem a desaparecer mais como camada visível do cotidiano - nos bastidores, suas funções continuam existindo, só que controladas por outras instâncias.

O que essa tendência significa para o Brasil e para o mercado de língua portuguesa

Para empresas no Brasil, vale olhar com atenção para o próprio portfólio digital. Quem ainda exibe com orgulho uma “app própria” deveria avaliar se uma interface bem documentada e uma estratégia clara de IA não ofereceriam mais segurança para o futuro.

Ao mesmo tempo, a visão de Carl Pei abre espaço para fornecedores especializados: empresas que desenvolvem back-ends seguros para IA, agentes confiáveis ou infraestrutura de privacidade podem virar peças importantes dessa nova fase dos smartphones.

Para os usuários, isso significa que, nos próximos anos, os celulares podem se tornar ao mesmo tempo mais pessoais e mais discretos. Menos toque, mais delegação - e, por trás da tela, uma rede de serviços que já não depende de ícones coloridos para funcionar.

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