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5 novos livros para ler esta semana

Pessoa lendo livros e fazendo anotações em mesa de madeira com xícara e vaso pequeno.

Ficção - romances em destaque

Família Escolhida, de Madeleine Gray

No começo dos anos 2000, Nell e Eve são duas deslocadas crónicas. Sem amigos e com pais bem meia-boca, elas acabam à mercê das meninas “descoladas” no colégio particular feminino e cheio de pose. Uma na outra, porém, encontram um refúgio poderoso - e, quando essa ligação se rompe, as duas ficam marcadas, ao que tudo indica, de um jeito irreversível. Anos depois, Eve, aos 30, cria a filha Lake sozinha, enfrenta o desconforto de ser a mãe queer na hora de pegar a criança na escola e sente uma falta enorme de Nell, com quem dividia a coparentalidade. Madeleine Gray acerta em cheio ao retratar as dores do início da vida adulta e o sofrimento de tentar descobrir o seu lugar no mundo - ainda mais quando você é gay e tem filhos cedo. O livro levanta perguntas instigantes sobre o que significa ser - e construir - uma família; por outro lado, o mistério sobre por que Nell abandonou Eve e Lake se prolonga mais do que precisava, e tanto Eve quanto Nell irritam em alguns momentos (falem logo o que estão sentindo!!!). Mesmo assim, Família Escolhida é um mergulho envolvente nessa zona cinzenta em que o amor muitas vezes vive.

Vigília, de George Saunders

Vigília é o primeiro romance de fôlego do escritor norte-americano George Saunders desde que ele venceu o Prêmio Booker, em 2017, com Lincoln no Bardo. A morte e o pós-vida continuam no centro da sua atenção nesta narrativa enxuta, sobre um magnata do petróleo agonizante - uma figura entre o tirano e o patriarca - que passa as últimas horas recebendo visitas: espíritos do seu passado, familiares devastados e um espírito “elevado” cuja função é oferecer consolo enquanto ele atravessa para o outro lado. Só que ele é rabugento demais para aceitar qualquer conforto e, à medida que entendemos melhor a vida dúbia, destrutiva e devastadora que levou - e o impacto que deixou no futuro da humanidade -, a sensação geral é de que ele também não merece esse amparo. A ideia é forte, mas é difícil não se perder apenas a analisar a técnica do Saunders: o jeito como ele monta frases e encaixa cada palavra. Dá para imaginar este romance aparecendo, muito em breve, em listas de leitura do ensino médio e em provas de literatura; por isso, embora seja uma leitura relevante, densa e atual, às vezes também parece exigir esforço demais.

Glifo, de Ali Smith

Uma festa de família e uma história de fantasma dão a partida no romance mais recente de Ali Smith - um “livro-irmão” de Gliff, a distopia de 2024 -, que reúne duas irmãs afastadas num encontro onde o etéreo se mistura ao cotidiano. Quando crianças, Petra e Patricia ouviram uma narrativa sobre um soldado morto, achatado nas profundezas da França; esse relato se entrelaça com a história de um parente fuzilado por deserção durante a Primeira Guerra Mundial, depois de abandonar as trincheiras para conduzir a salvo um cavalo gaseado. As duas histórias assombram as irmãs, sobretudo a mais velha, que insiste ser capaz de se comunicar com o soldado esmagado a partir do além. Décadas depois, esse passado volta à tona quando Petra acredita que um cavalo fantasma revirou os móveis do seu quarto e devorou suas roupas. Apesar do catálogo vasto e prolífico de Smith, este livro desaponta: o tema antimilitarista que parecia prometido fica distante e é trocado por uma mistura dispersa de tensões familiares desconfortáveis com o sobrenatural - e o resultado deixa mais perguntas do que respostas.

Não ficção

O que Está Te Impedindo?: 11 Códigos de Trapaça para Destravar a Vida que Você Quer, de Timothy Armoo

O que Está Te Impedindo?, de Timothy Armoo, está entre os melhores livros de negócios do momento. Seja você alguém que já vive o universo empresarial por dentro, um iniciante completo ou esteja em algum ponto intermediário, Armoo torna o processo de criar e executar uma ideia de negócio extremamente simples de acompanhar. Ao longo do livro, ele contextualiza a própria trajetória e descreve como a sua mentalidade e a sua aptidão para traçar estratégias o levaram de um conjunto habitacional popular no sul de Londres à venda, antes dos 30 anos, de uma empresa avaliada em vários milhões de libras. Os “códigos de trapaça” que ele propõe trazem conselhos práticos e realistas, sem a cobertura açucarada comum em muitos livros de autoajuda. Ele também mostra como as histórias que repetimos para nós mesmos todos os dias moldam a vida e o que conseguimos realizar, além de argumentar que a obsessão por “originalidade” é superestimada - tudo isso mantendo a leitura fluida e prazerosa.

Livro infantil da semana

Coisa-Árvore, de Piers Torday, com ilustrações de Matthew Taylor Wilson

Em Coisa-Árvore, dá para sentir o eco da memória da árvore de Sycamore Gap, derrubada ilegalmente - e que inspirou Piers Torday a escrever esta ode delicada, comovente e cortante. Cheia de vida, a Coisa-Árvore pulsa de atividade acima e abaixo das raízes, até que o Cavaleiro a corta em pedaços e incendeia o toco que sobrou. Mas um gaio esperto leva embora a última bolota mágica da Coisa-Árvore, que passa a ser protegida por Marlo e seu parceiro esquilo, Rinti, numa aldeia onde quase nada consegue crescer. Cuidada por essa dupla divertida, a Coisa-Árvore provoca uma transformação enorme: surgem vida e fartura de alimento; porém, quando o Cavaleiro reaparece com seu machado, Marlo precisa se posicionar. Lírico e humano, Coisa-Árvore se apoia nas ilustrações atmosféricas em preto e branco de Matthew Taylor Wilson, que se espalham em cada página como ramos e raízes. É uma fábula bonita e emocionante, que celebra o ato de cuidar da natureza - e trabalhar em parceria com ela.

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