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Nova York enfrenta Big Tech e cria sua própria proteção de dados.

Mulher em escritório interagindo com holograma de escudo e prédios, com vista para a ponte do Brooklyn.

Para continuar operando na cidade, a mensagem é simples: será preciso se curvar ao rumo definido por Nova York.

Enquanto, em Washington, a grande reforma para enquadrar os gigantes de tecnologia patina há anos, Nova York decidiu acelerar. A metrópole está usando seu peso económico para criar um conjunto próprio de regras sobre dados, saúde, proteção de crianças e cibersegurança. A ideia é que quem faz negócios na cidade passe a seguir padrões mais rígidos do que no resto dos EUA - um movimento capaz de alterar o equilíbrio de poder no ambiente digital.

Nova York quer ficar menos dependente da Big Tech

O clima entre Nova York e as grandes empresas digitais está longe de ser amistoso. A prefeitura já não se enxerga apenas como cliente desses gigantes, e sim como reguladora com objetivos bem definidos: proteger os dados dos moradores, resguardar infraestrutura crítica e limitar abusos de poder.

Nesse contexto, vai surgindo, passo a passo, um arcabouço próprio - uma espécie de “constituição digital” local, ainda que ninguém a chame oficialmente assim. A premissa central é direta: qualquer empresa que ofereça serviços digitais em Nova York, seja um grupo norte-americano ou um fornecedor estrangeiro, terá de cumprir padrões claros de privacidade e segurança.

"Nova York usa seu papel de metrópole económica para obrigar gigantes globais de tecnologia a aceitar regras mais duras - localmente, mas com efeito de sinalização."

New York Privacy Act: um enquadramento duro para quem coleta dados

O pilar mais visível dessa virada é o New York Privacy Act. O projeto ainda está em tramitação, mas já é tratado como uma das propostas de privacidade mais rigorosas dos Estados Unidos.

A regra mira todas as empresas que vendem produtos ou serviços em Nova York - seja uma startup do Brooklyn, um provedor de nuvem da Califórnia ou uma plataforma da Europa. Se a empresa processa dados de moradores de Nova York, entra no escopo.

  • Consentimento antes do uso de dados: a empresa só poderia tratar ou compartilhar dados pessoais depois que o utilizador der consentimento ativo.
  • Deveres de transparência: as empresas teriam de explicar com clareza quais dados coletam, como os usam e se os vendem.
  • Direitos para os titulares: as pessoas poderiam corrigir seus dados ou exigir a exclusão completa.
  • Aplicação também a empresas de fora: estar sediada no exterior não impediria a incidência; o que conta é atuar em Nova York.

Com isso, Nova York se aproxima em alguns pontos do modelo europeu, sem simplesmente reproduzi-lo. A pressão sobre negócios orientados a dados aumenta - sobretudo para quem depende fortemente de publicidade personalizada.

Interrupção de compras: tecnologia insegura fora dos órgãos públicos

Ao mesmo tempo, a cidade está apertando o cerco no próprio processo de compras governamentais. A orientação é que órgãos públicos deixem de adquirir determinados hardwares e sistemas quando forem classificados como risco para a cibersegurança.

Isso pode incluir modelos específicos de computadores, componentes ou até sistemas inteiros de TI avaliados como vulneráveis - ou vistos como possível porta de entrada para espionagem. Na prática, cria-se um filtro de segurança antes mesmo da contratação.

Para os fabricantes, a consequência é clara: quem quiser vender para órgãos públicos de Nova York precisará demonstrar padrões de segurança de forma convincente. Soluções baratas, porém frágeis, tenderiam a ficar fora das redes administrativas.

Novo escritório de ativos digitais e Blockchain

Outro elemento desse redesenho da governança digital é o escritório municipal de ativos digitais e Blockchain. Criado no ano passado, ele tem duas missões principais:

  • coordenar projetos de tecnologia com uso de Blockchain dentro de rotinas e processos da cidade
  • conduzir, com responsabilidade, a relação com criptoativos e aplicações baseadas em Blockchain

A intenção é evitar que “experiências” com cripto sejam introduzidas sem controlo em áreas sensíveis. Ao mesmo tempo, casos de uso considerados úteis - como registos à prova de falsificação ou processos de contratação mais transparentes - devem ser testados de maneira direcionada.

O que significa Blockchain

De forma simplificada, uma Blockchain é um registo digital que guarda dados em blocos. Cada bloco novo traz uma referência ao anterior. Isso cria uma cadeia em que alterações ficam muito mais difíceis, porque mexer em um ponto impactaria a sequência inteira.

Propriedade O que significa
Armazenamento distribuído Os dados ficam em muitos computadores, e não apenas em um servidor.
Transparência Os participantes podem visualizar transações, dependendo de como o sistema foi desenhado.
Resistência a falsificações Mudanças deixam rastros; a adulteração fica evidente.

É justamente esse conjunto de características que Nova York tenta incorporar, de modo controlado, aos processos administrativos - sem embarcar em uma euforia cripto sem regulação.

Novos escudos para dados de crianças e informações de saúde

Dados de menores de idade e informações de saúde são considerados especialmente delicados. Nos dois temas, a cidade está desenhando limites bem mais rígidos.

New York Child Data Protection Act

No fim de 2025, entrou em vigor o New York Child Data Protection Act, voltado especificamente para plataformas usadas por pessoas com menos de 18 anos.

"Quem alcança crianças e adolescentes no digital não deveria mais tratá-los como matéria-prima de dados para publicidade e manipulação."

O pacote de proteção infantil impõe várias obrigações:

  • Nada de direcionamento publicitário para menores: plataformas deixam de poder atingir jovens utilizadores com anúncios personalizados.
  • Proibição de dark patterns: truques de design enganosos que empurram para rolagem infinita, compras não desejadas ou partilha de dados ficam proibidos para esse público.
  • Privacidade por padrão (privacy by default): contas de menores devem vir configuradas, desde o início, com alto nível de proteção - e não só depois de ajustes.

As punições podem ser pesadas: o procurador-geral do estado de Nova York pode aplicar multas de até 5.000 dólares por ocorrência. Para plataformas grandes, isso pode rapidamente virar valores na casa dos milhões.

New York Health Information Privacy Act

Já em 2024, começou a valer o New York Health Information Privacy Act, com regras mais duras desde 2025. O foco é proteger dados sensíveis de saúde dos residentes.

Os pontos centrais incluem:

  • direito de solicitar a exclusão de informações de saúde
  • proibição de vender esses dados sem consentimento explícito da pessoa afetada

Nos EUA, onde seguradoras, redes hospitalares e empresas de tecnologia coletam cada vez mais dados de saúde, trata-se de um recado forte. Nova York quer impedir que informações médicas íntimas virem um ativo livremente negociável.

O novo “superórgão” DIGIT como centro da política digital

Na agenda “State of the State 2026”, aparece mais uma peça para concentrar essa transformação: o futuro Office of Digital Innovation, Governance, Integrity & Trust, ou DIGIT.

Esse órgão, no nível estadual, deve reunir várias frentes:

  • coordenação da estratégia de cibersegurança
  • supervisão da política de privacidade
  • alinhamento de projetos tecnológicos no setor público

O resultado pretendido é um tipo de centro de comando digital que junta responsabilidades hoje dispersas. Assim, decisões sobre novas tecnologias em órgãos públicos, padrões de segurança e fluxos de dados tenderiam a ganhar mais consistência.

Mudança política na prefeitura aumenta a pressão

Em grande parte, as iniciativas descritas começaram a ser impulsionadas sob o então prefeito republicano Eric Adams. Com a posse do sucessor democrata Zohran Mamdani, no início de 2026, a tendência deve ganhar força extra.

Um sinal relevante foi a nomeação da jurista Lina Khan para liderar a equipa de transição na prefeitura. Ela é vista como crítica persistente de grandes empresas digitais e construiu reputação como uma antitruste sem concessões.

"Com uma adversária declarada da Big Tech em posição-chave, Nova York envia um recado claro: acabou o tempo de aprovar tudo em silêncio."

Há quem espere que as próximas leis e normas fiquem ainda mais severas. Entre hipóteses discutidas estão restrições mais duras ao reconhecimento facial em espaços públicos, regras objetivas para uso de sistemas de IA em órgãos governamentais e exigências adicionais de transparência para algoritmos que influenciam decisões sobre crédito, empregos ou habitação.

Efeito de demonstração para outras cidades e países

A questão interessante é até que ponto outras metrópoles vão copiar Nova York. Se uma empresa já precisa adaptar apps e serviços para cumprir as exigências locais, é natural reaproveitar esse mesmo padrão em outras regiões - simplesmente por custo.

Com isso, uma única cidade pode ganhar influência global. Aquilo que Nova York passar a considerar “mínimo aceitável” para dados de crianças ou de saúde pode virar referência em outras cidades dos EUA e, possivelmente, também em municípios europeus.

Oportunidades e riscos do novo rumo

Construir uma ordem digital local, mais exigente, traz benefícios evidentes:

  • aumenta a proteção de dados sensíveis e torna o abuso menos atrativo
  • reduz a dependência do poder público em relação a poucos fornecedores dominantes
  • dá impulso a modelos de negócio inovadores e mais parcimoniosos no uso de dados

Ao mesmo tempo, não faltam pontos de atrito: empresas pequenas podem ter dificuldade para cumprir todas as obrigações; plataformas grandes podem limitar funções em Nova York ou encarecê-las; e a coordenação com a legislação federal tende a permanecer como um desafio permanente.

Para os moradores, o impacto prático seria: mais direitos sobre os próprios dados, mais transparência e, provavelmente, mais interações com consentimentos, definições de privacidade e questões de segurança. O dia a dia digital não fica mais simples - mas tende a ser mais controlável.

O facto de uma cidade como Nova York estar seguindo esse caminho ilustra como a relação de forças no mundo digital está mudando. Não são apenas as empresas que determinam o que é tecnicamente possível e juridicamente aceitável. Cidades começam a assumir, com mais seriedade, o papel de guardiãs de infraestrutura, dados e direitos fundamentais - e, ao fazê-lo, colocam a primeira pedra de um sistema mais rígido para lidar com a Big Tech.

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