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Análise: Como a resistência contra Trump está começando a se movimentar.

Pessoas em protesto nas escadarias de um prédio público segurando documentos e um cartaz escrito "Constitution".

De assembleias estaduais a tribunais - e até dentro do próprio partido - bolsões de resistência começam a contestar o enorme controle de poder de Donald Trump. Isoladamente, nenhum desses choques é suficiente para inviabilizar sua presidência. Em conjunto, porém, sugerem um reequilíbrio lento e turbulento da política dos Estados Unidos à medida que as eleições de meio de mandato se aproximam.

Do “poder total” ao contra-ataque inesperado

Trump já se gabou de que, como presidente, teria o direito de fazer o que quisesse. Essa postura ainda molda sua imagem pública. Só que o cenário prático está mudando: juízes, governadores, parlamentares e ativistas vêm testando, na vida real, até onde essa pretensão vai.

A resistência anti-Trump hoje tem menos a ver com marchas em grandes cidades e mais com atrito institucional em muitos lugares diferentes.

O movimento não é linear. Trump segue acumulando vitórias relevantes, sobretudo em política externa e no uso de prerrogativas do Executivo. Ainda assim, adversários e críticos somam vitórias pequenas - mas suficientes para furar a narrativa de que o poder do presidente seria absoluto.

Antes de entrar nos casos mais visíveis, vale notar um componente novo desta fase: a resistência deixou de depender apenas de grandes gestos simbólicos. Ela aparece em decisões administrativas, ações judiciais, votações de comissões e pressões locais - pontos “menos glamourosos” que, somados, aumentam o custo político e jurídico das investidas da Casa Branca.

Como a resistência funciona na prática (e por que isso importa)

Grande parte do contra-ataque atual se apoia em “trilhos de proteção” discretos do sistema americano. Três mecanismos se destacam:

Mecanismo Como limita o poder
Tribunais Podem bloquear ou atrasar decretos, processos e regulações que ultrapassem limites legais.
Federalismo Dá aos estados margem para resistir ou desacelerar operações federais em seu território.
Eleições Tornam parlamentares sensíveis a reações locais, estimulando rupturas pontuais com o presidente.

Nenhuma dessas ferramentas garante um resultado específico. Elas operam elevando o preço político e legal de certas decisões. Uma intensificação de deportações pode até ser tecnicamente possível; mas, se desencadear protestos em massa, boicotes de empresas e ordens judiciais, a Casa Branca pode concluir que o desgaste deixou de compensar.

Minnesota vira um caso-teste

A “intensificação” federal recua sob pressão

O sinal mais nítido dessa nova etapa apareceu em Minnesota. Após semanas de protestos contra táticas agressivas de deportação e as mortes, em plena luz do dia, de dois cidadãos americanos, a Casa Branca encerrou de forma abrupta uma intensificação de agentes federais de imigração no estado, que vinha sendo altamente divulgada.

O czar da fronteira, Tom Homan, descreveu a retirada como missão cumprida, citando mais de 4.000 prisões. Mas a imagem pública contava outra história: a operação virou um passivo político, com cenas de agentes fortemente armados em confronto com manifestantes em Minneapolis dominando a cobertura jornalística.

O governador democrata Tim Walz classificou a presença federal como uma “invasão federal sem precedentes” e apresentou o encerramento como um ponto de virada.

Walz sustentou que Minnesota havia mostrado a outros estados “o que significa defender o que é certo” diante de pressão federal.

O episódio escancarou uma fragilidade central para Trump: indignação popular e impactos econômicos locais podem tornar táticas de linha-dura difíceis de sustentar, mesmo quando existe base legal para executá-las.

Um detalhe adicional ajuda a explicar por que Minnesota pesou tanto: quando protestos, comércio local e autoridades estaduais entram no mesmo ciclo de reação, a operação passa a ter custo diário - em confiança pública, produtividade e estabilidade - e o desgaste tende a se espalhar para além do tema imigração.

Tribunais se consolidam como um freio difícil de contornar

O Judiciário segue como um dos contrapesos mais fortes às ambições de Trump - inclusive por meio de magistrados nomeados por presidentes republicanos. Na quinta-feira, em Washington, um juiz federal barrou a tentativa do secretário de Defesa, Pete Hegseth, de rotular o senador Mark Kelly - democrata do Arizona e capitão aposentado da Marinha - como “sedicioso”.

O governo queria punição criminal a Kelly por causa de um vídeo em que ele aconselhava militares a não cumprir ordens ilegais. Um grande júri já havia se recusado a autorizar acusações contra Kelly e outros veteranos democratas. A decisão do juiz reforçou um limite elementar: mesmo com um Departamento de Justiça alinhado, não há indiciamento sem o aval de cidadãos comuns no júri.

Kelly reagiu com desafio aberto, prometendo “lutar dez vezes mais” contra tentativas de silenciá-lo. A investida fracassada por sedição pode funcionar como tiro de advertência, sinalizando que esforços para instrumentalizar leis de segurança nacional encontram resistência jurídica de peso.

Coragem como “contágio”

Para parte dos democratas, essas decisões vão além de disputas legais pontuais. A senadora Elissa Slotkin, de Michigan, argumenta que elas viram chaves psicológicas. Ela tem incentivado eleitores e autoridades a avançarem “alguns centímetros” além da zona de conforto ao enfrentar excessos de Trump.

A aposta de Slotkin é simples: quando as pessoas percebem que Trump não é invencível, o medo diminui e a coragem se espalha.

A lógica dela parte da ideia de que o poder político do presidente não se sustenta apenas em autoridade institucional, mas também numa aura cuidadosamente cultivada de inevitabilidade.

Republicanos começam a vacilar diante das tarifas de Donald Trump

A reação já não se limita a democratas e juízes. No Capitólio, um pequeno grupo de republicanos passou a contrariar abertamente a Casa Branca na política comercial.

  • Seis republicanos se uniram aos democratas para revogar as tarifas de Trump sobre o Canadá.
  • Três republicanos ajudaram a barrar uma tentativa de impedir futuras votações sobre essas tarifas.

As deserções ainda são restritas, mas representam um rompimento com a lealdade quase automática que marcou grande parte do segundo mandato de Trump. Parlamentares de regiões agrícolas e industriais estão sob pressão de eleitores que afirmam sentir o efeito das tarifas diretamente no bolso e no emprego.

Um estudo do Federal Reserve de Nova York tornou o argumento mais difícil de ignorar: concluiu que consumidores e empresas dos EUA arcaram com quase 90% do custo das tarifas de Trump no ano passado, enfraquecendo a tese do presidente de que governos estrangeiros estariam pagando a conta.

O limite prático das guerras comerciais de Trump deixou de ser uma abstração econômica: são eleitores vendo preços subirem e exportações caírem.

O republicano Jeff Hurd, do Colorado, que apoiou a revogação, descreveu seu voto como dever constitucional e compromisso com o distrito - não como rebelião. “Eu avaliei o que era melhor para o meu distrito e votei”, disse. Para a Casa Branca, esse tipo de justificativa é um sinal amarelo: a lealdade começa a ser medida contra a sobrevivência eleitoral.

Poder no exterior, limites em casa

Política externa ainda está, em grande parte, nas mãos de Trump

Fora das fronteiras americanas, a margem de manobra de Trump continua imponente. Sua decisão de ordenar uma operação que capturou o homem forte da Venezuela, Nicolás Maduro, mostrou o quanto um presidente pode agir como comandante em chefe.

O próprio Trump já disse ao New York Times que apenas sua “moralidade” poderia, de fato, conter seu poder em política externa. A frase, somada à operação na Venezuela, inquietou aliados já desconfortáveis com seu estilo imprevisível.

Na Conferência de Segurança de Munique, um relatório o descreveu como um homem da “demolição” no palco global. O líder canadense Mark Carney pediu que “potências médias” - países que não são superpotências nem Estados pequenos - se unam para resistir à intimidação de gigantes, inclusive dos EUA sob Trump.

Instituições domésticas seguem oferecendo resistência

Dentro dos EUA, algumas partes do establishment permanecem teimosamente independentes. O presidente do Federal Reserve, Jerome Powell, em fim de mandato, resistiu a forte pressão da Casa Branca para cortar juros de maneira agressiva, preservando a credibilidade do banco central. No campo cultural, artistas e patrocinadores boicotaram o Centro Kennedy depois que Trump colocou aliados no comando, transformando um símbolo cultural em mais uma arena de disputa política.

Ainda assim, Trump conserva amplo poder executivo. Recentemente, ele retirou da Agência de Proteção Ambiental (EPA) uma autoridade-chave para regular gases de efeito estufa, praticamente desmontando os marcos climáticos construídos nos governos Barack Obama e Joe Biden. Também demitiu a chefe de antitruste do governo, Abigail Slater, que vinha defendendo uma fiscalização dura sobre gigantes de tecnologia com laços próximos ao presidente.

Cada demissão e cada ordem de desregulamentação mostram que, embora a resistência consiga desacelerar Trump, ela ainda não encontrou um modo de pará-lo.

Eleições de meio de mandato, mística e o limite do medo

A taxa de aprovação de Trump está estacionada em torno de 39% nas principais médias de pesquisas. Essa fragilidade começa a orientar cálculos dos dois lados. Democratas enxergam a chance de transformar resistência dispersa em um realinhamento mais amplo. Republicanos, diante de um mapa difícil nas eleições de meio de mandato, temem ser arrastados pela impopularidade do presidente.

Trump tenta mantê-los alinhados com ameaças diretas, advertindo que qualquer republicano que vote contra suas tarifas “vai sofrer seriamente as consequências” em prévias partidárias. Por enquanto, não existe maioria à prova de veto no Congresso para temas como comércio e imigração. No papel, Trump ainda ocupa a posição mais forte.

Mas a matemática eleitoral corta nos dois sentidos. À medida que mais republicanos como Hurd concluem que seus eleitores se importam mais com empregos locais do que com mensagens do presidente, o custo da lealdade cega sobe. A desobediência silenciosa em um tema específico pode virar hábito.

O que pode acontecer a seguir

Alguns cenários já estão na mesa. Se a aprovação de Trump continuar baixa e as tarifas seguirem prejudicando economias de estados decisivos, mais republicanos podem aderir a revoltas seletivas sobre comércio, vigilância e aplicação de leis de imigração. Pode surgir um bloco estreito, porém recorrente, suprapartidário - não como facção formal, mas como uma coalizão móvel de parlamentares focados em blindar seus distritos.

Por outro lado, uma crise de política externa ou uma ameaça percebida à segurança pode reunificar os republicanos em torno do presidente, ao menos por algum tempo. Trump tem histórico de usar movimentos dramáticos no exterior para redefinir a conversa doméstica. Esse risco paira sobre qualquer tentativa de prever para onde essa resistência vai.

Para cidadãos tentando entender o momento, alguns termos são decisivos. Casos de sedição envolvem acusações de tentar derrubar ou enfraquecer o governo pela força - uma imputação gravíssima que, se usada de forma indevida, pode sufocar a dissidência. Tarifas são impostos sobre produtos importados e frequentemente acabam elevando preços para consumidores no próprio país. Entender essas ideias ajuda a explicar por que juízes e parlamentares hesitam em entregar a qualquer presidente - não apenas a Trump - liberdade sem controle para manejá-las.

A resistência anti-Trump de 2026 não se parece com as grandes marchas do primeiro mandato. Ela é mais lenta, mais procedimental e muitas vezes fica enterrada em votações de comissão e petições judiciais. Justamente por operar por dentro do sistema, porém, ela pode remodelar a forma como futuros presidentes enxergam os limites do próprio poder.

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