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Criação de bezerras leiteiras: alimentação adequada até o desmame

Homem alimenta bezerro com mamadeira em galpão agrícola com palha no chão e vacas ao fundo.

Da fase seca da vaca às primeiras goladas de colostro, a nutrição no início da vida atua de forma discreta, mas decisiva, sobre produção de leite, saúde e fertilidade ao longo de anos. Acertar essas primeiras semanas deixou de ser um “extra” para rebanhos de alto desempenho: virou um pilar de manejo.

Por que os primeiros seis meses definem a carreira de uma vaca

Hoje há um consenso entre nutricionistas: a forma como a novilha se desenvolve do nascimento aos seis meses deixa marcas permanentes no seu potencial produtivo. Nesse intervalo curto, consolidam-se o crescimento muscular, a formação de tecido mamário, a robustez óssea e a capacidade de resposta imune.

Nos primeiros seis meses, você constrói uma vaca lucrativa - ou fixa fragilidades que custarão caro pelo resto da vida.

Quando o ganho de peso é rápido sem perder o controlo, o retorno costuma aparecer em duas frentes: a novilha atinge idade ao primeiro parto mais cedo (reduzindo custo de criação) e tende a produzir mais na 1ª e 2ª lactações. Já atrasos de crescimento raramente são compensados por completo, mesmo com dietas melhoradas mais tarde.

Por isso, o foco não deve ficar apenas no bezerro: a vaca seca e, principalmente, as três semanas finais antes do parto influenciam diretamente a qualidade do colostro e o equilíbrio mineral que determina uma transição limpa para a lactação.

A janela de 21 dias pré-parto: preparando uma boa lactação antes de ela começar

O período seco - e, com destaque, os últimos 21 dias pré-parto - é estratégico tanto para a vaca quanto para o recém-nascido. É nesse momento que o úbere conclui a preparação para a lactação seguinte e o colostro se forma. A dieta dessa fase não é “ração de manutenção”: ela funciona como alicerce para os próximos 305 dias de produção.

A regra “3×14” para vacas no pré-parto (close-up)

Em campo, técnicos franceses popularizaram um guia simples, conhecido como regra “3×14”, para vacas próximas ao parto. A ideia é trabalhar três números ao longo das três semanas finais:

  • cerca de 14 kg de consumo de matéria seca (CMS) por dia
  • aproximadamente 14% de proteína bruta (PB) na dieta
  • por volta de 14% de amido, abaixo do nível típico da dieta de vacas em lactação

A palha costuma ser peça-chave nesse modelo. Alguns quilogramas de palha limpa e picada ajudam a aumentar volume e fibra sem elevar demais a energia. Já alimentos muito ricos em amido, como silagem de milho em excesso, podem empurrar a vaca para condição corporal alta demais justamente quando isso mais atrapalha.

Vaca em close-up precisa de muita fibra e energia equilibrada - não de uma dieta pesada e “engordativa” que vai cobrar a conta no pós-parto.

O objetivo é uma dieta que promova enchimento ruminal, reduza seleção no cocho e favoreça metabolismo estável de cálcio e energia. Manter o amido alguns pontos abaixo da dieta de lactação ajuda a diminuir risco de sobrecondicionamento e de distúrbios metabólicos.

Benefícios sanitários de uma dieta equilibrada no close-up

Quando esse equilíbrio é respeitado, é comum observar menos casos de hipocalcemia subclínica e das complicações associadas: retenção de placenta, infeções uterinas, deslocamento de abomaso e arranque lento da lactação. Um bom balanço mineral somado a rúmen funcional sustenta a ação de “músculos lisos”, como útero, esfíncteres dos tetos e o próprio abomaso.

Na prática, isso tende a significar parto mais ágil, melhor involução/“limpeza”, pontas de teto mais firmes (com maior resistência à mastite) e menos transtornos digestivos. E o bezerro também ganha: uma vaca mais saudável levanta-se com mais facilidade, permite mamada cedo e costuma oferecer colostro de melhor qualidade.

Colostro: imunidade líquida com o tempo a contar

Bezerros nascem com quantidade quase nula de anticorpos circulantes. A proteção nas primeiras semanas depende do colostro - e o relógio começa a correr no momento do parto.

Colocar colostro de alta qualidade no bezerro até duas horas após o nascimento é uma das ações com maior retorno numa fazenda leiteira.

Três alavancas: timing, quantidade e qualidade

O sucesso do fornecimento de colostro é definido por três pontos, que precisam ser geridos ao mesmo tempo:

Fator Meta Por que é importante
Momento 1º fornecimento até 2 horas após o nascimento A absorção de anticorpos no intestino é máxima nessa fase inicial
Quantidade Pelo menos 10% do peso vivo na 1ª mamada Garante que anticorpos suficientes cheguem à circulação
Qualidade Alto teor de IgG, verificado com refratómetro Colostro mais rico exige menos litros para atingir a mesma proteção

Como referência prática, um bezerro de 40 kg deve receber cerca de 4 litros na primeira refeição. Se o colostro tiver qualidade inferior, ele ainda pode ser útil - mas o volume precisa aumentar para compensar a menor concentração de anticorpos.

Medir para gerir o que não se vê: refratómetro e “banco de colostro”

O refratómetro tornou-se uma ferramenta acessível para avaliar colostro na própria fazenda. Com uma pequena amostra da primeira ordenha, obtém-se uma leitura correlacionada aos níveis de imunoglobulinas. Lotes com boa pontuação podem ser fornecidos frescos ou congelados em recipientes identificados, formando um banco de colostro para partos difíceis ou para novilhas com ejeção de leite limitada.

Já colostro com leitura baixa pode ser destinado a volumes maiores ou misturado com lotes melhores. Registar essas medições ao longo do tempo ajuda a revelar problemas de base, como falhas na nutrição da vaca seca, desequilíbrios minerais ou mastite crónica a comprometer a transferência de anticorpos.

Um cuidado adicional que muitas propriedades têm incorporado é a higiene do colostro: ordenha limpa, refrigeração rápida quando não for usado imediatamente e, quando aplicável, pasteurização específica para colostro com controlo de tempo e temperatura. Mesmo com IgG elevado, carga bacteriana alta pode reduzir a eficácia da imunidade passiva e aumentar risco de diarreia.

O “vão de imunidade” por volta do dia 11

Mesmo com colostro bem manejado, existe uma fase sensível. A imunidade passiva recebida do colostro cai gradualmente, enquanto o sistema imune do bezerro ainda está a maturar. Entre 10 e 14 dias, ele entra num verdadeiro vão de imunidade.

Esse curto intervalo costuma coincidir com o primeiro grande desafio sanitário do bezerro: diarreia, pneumonia - ou os dois.

Nessa etapa, o ambiente precisa ser tratado como parte da dieta: ventilação boa sem corrente de ar, cama seca e limpa, e higiene rigorosa de baldes, bicos e mamadeiras reduzem a pressão de infeção. Também ajuda reduzir stresse em procedimentos como agrupamento, marcação e descorna, para que o bezerro atravesse essa janela de risco com menor custo fisiológico.

Estratégias de alimentação do nascimento ao desmame na nutrição inicial de bezerras

Depois de garantir colostro bem feito, o foco passa para fornecimento consistente de leite (ou sucedâneo) e acesso precoce a alimento sólido.

Do colostro ao leite de transição e ao leite/sucedâneo

É cada vez mais comum manter os bezerros por alguns dias com leite de transição (leite dos primeiros dias pós-parto) antes de passar totalmente para leite integral ou sucedâneo. Esse “degrau” pode favorecer o desenvolvimento intestinal, já que o leite de transição ainda carrega mais componentes bioativos do que o leite padrão.

Boas práticas nesta fase incluem:

  • manter horários fixos de aleitamento, todos os dias
  • servir o leite a temperatura estável, próxima à corporal
  • evitar mudanças bruscas de volume ou concentração
  • disponibilizar água fresca a partir do 2º ou 3º dia

O consumo de água é frequentemente subestimado, mas é determinante para o desenvolvimento do rúmen e para o aumento do consumo de concentrado inicial. Com água à vontade, é comum o bezerro começar a “beliscar” ração mais cedo e apresentar melhores taxas de crescimento.

Concentrado inicial e o caminho até o desmame

Um concentrado inicial de alta qualidade deve estar disponível desde a primeira semana. A meta no começo não é consumo elevado, e sim estímulo: pequenas ingestões diárias promovem desenvolvimento da mucosa ruminal e da população microbiana. Misturas mais grosseiras/texturizadas incentivam mastigação e produção de saliva, o que beneficia a saúde do rúmen.

O desmame funciona melhor quando é guiado por consumo de sólido e evolução corporal, e não apenas pela idade. Um parâmetro usado com frequência é manter ingestão sustentada de 1,5 a 2,0 kg/dia de concentrado antes de reduzir o leite. Fazer o desmame de forma gradual ao longo de 10 a 14 dias costuma diminuir “travagens” de crescimento e reduzir diarreia pós-desmame.

Para não depender apenas de impressões, vale incluir um controlo simples e constante: fita de pesagem/medidas, registo de ganho médio diário e avaliação de fezes e apetite. Esses dados ajudam a ajustar o plano alimentar antes que o problema apareça na taxa de crescimento do lote.

Exemplo prático: dois manejos, dois resultados

Imagine duas novilhas nascidas no mesmo dia. A primeira recebe 2 litros de colostro mediano quatro horas após o parto; depois, enfrenta volumes de leite irregulares e acesso tardio ao concentrado inicial. A segunda toma 4 litros de colostro de alta qualidade em menos de uma hora, mantém aleitamento estável e encontra concentrado atrativo desde a primeira semana.

Ao chegar aos seis meses, a segunda tende a estar mais pesada, com melhor desenvolvimento esquelético e menos sequelas de doenças. Em muitos casos, alcança peso de cobrição mais cedo e pare com 22 a 24 meses, entrando mais rapidamente no rebanho e produzindo mais na primeira lactação. A primeira, mesmo que seja mantida, corre maior risco de parir mais tarde, produzir menos e acumular mais problemas sanitários.

Quando esse padrão se repete em dezenas de animais, a margem futura do rebanho muda. Nutrição e cuidados no início da vida deixam de ser apenas decisão de bem-estar e tornam-se uma alavanca económica de longo prazo.

Termos-chave usados por produtores e consultores

Alguns conceitos técnicos aparecem sempre que o tema é nutrição no pré-parto e na fase inicial das bezerras:

  • Consumo de matéria seca (CMS): quantidade de alimento ingerida descontando a água. A meta de 14 kg de CMS no close-up foca nos nutrientes de forma objetiva.
  • Proteína bruta (PB) (CP; “MAT” em dietas francesas - Matéria Azotada Total): indicador do fornecimento de nitrogénio/proteína para microrganismos do rúmen e para a vaca.
  • Amido: fonte energética central em dietas com cereais; níveis excessivos no entorno do parto favorecem sobrecondicionamento e doenças metabólicas.
  • Hipocalcemia: baixa de cálcio no sangue ao redor do parto, associada à febre do leite, fraqueza muscular e a uma cascata de transtornos no pós-parto.

Dominar esses termos facilita a leitura de formulações e a tomada de decisão junto ao nutricionista, em vez de aplicar “receitas” sem interpretação.

Riscos, compromissos e como controlar

Buscar crescimento acelerado do bezerro exige atenção a compensações. Ingestões muito altas de leite, sem higiene robusta, podem elevar a incidência de distúrbios digestivos. Do outro lado, dietas energéticas demais para vacas secas podem resolver um ponto e abrir outro, como fígado gorduroso e cetose após o parto.

As estratégias mais consistentes tendem a combinar metas de crescimento com disciplina de rotina: higiene, qualidade da cama, ventilação e avaliação de condição corporal. Pequenas verificações diárias geralmente evitam crises maiores - observar comportamento de sucção, consistência das fezes, tosse e alterações no tempo deitado antecipa problemas muito antes de o ganho de peso cair.

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