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Artemis II e a prova da radiação espacial sobre o corpo humano

Dois astronautas dentro de uma nave espacial observando as auroras boreais e a Terra pela janela.

Sair da proteção natural da magnetosfera da Terra para viajar até a Lua não é apenas uma façanha técnica: é também um teste duro para a mente e para o organismo. Foi assim que o Dr. Haygan Tablian, diretor de medicina espacial da Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA), descreveu o desafio enfrentado pela tripulação de Artemis II.

Há oito dias, a equipe deixou nosso planeta para seguir rumo à Lua e contorná-la em voo, reacendendo, claro, as fantasias absurdas das teorias da conspiração. Ao mesmo tempo em que a missão simboliza o retorno da humanidade ao caminho da exploração espacial, ela também coloca os quatro astronautas diante de um dos maiores inimigos do corpo humano: a radiação cósmica galáctica (RCG), formada por partículas ionizantes de altíssima energia. Embora a cápsula Orion tenha sido projetada com uma blindagem robusta para reduzir os danos desse ambiente - como lesões no DNA, queda no desempenho cognitivo, cansaço e sobrecarga do sistema imunológico -, ela não consegue oferecer proteção total.

Tripulação de Artemis II: voluntários diante do vácuo espacial e da radiação

Em entrevista ao veículo norte-americano ABC News, o Dr. Haygan Tablian conversou com o jornalista sobre os riscos que a tripulação enfrenta ao longo da jornada. Uma gravação publicada ontem no YouTube foi analisada por nós e resumida a seguir.

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Para Tablian, essa missão marca o retorno do ser humano a um ambiente biologicamente hostil em praticamente todos os sentidos. A leitura é estritamente médica, mas impossível de ser subestimada, já que a humanidade não sai de seu abrigo protetor - a Terra envolvida pela magnetosfera - há quase 50 anos. “Esta missão representa uma virada importante por causa dos projetos de pesquisa que ela leva a bordo, especialmente os estudos sobre o impacto das radiações no organismo, que estão entre as nossas principais preocupações quando planejamos uma viagem a Marte”, afirma.

Durante o trajeto, os quatro integrantes da missão precisam atravessar obrigatoriamente os cinturões de Van Allen, duas grandes regiões em formato de anel que circundam o planeta. Essas áreas aprisionam partículas de alta energia, como elétrons e prótons vindos do vento solar, formando uma zona em que há forte concentração de partículas energéticas e que toda missão lunar precisa cruzar para deixar a órbita baixa e apontar para o nosso satélite natural.

Depois de vencer essa barreira de radiação, a tripulação ainda não está livre do perigo, porque segue para além do escudo magnético terrestre, uma região em que a defesa contra partículas solares e galácticas é muito limitada. “Quanto mais nos afastamos da magnetosfera da Terra, isto é, dessa proteção magnética, maior é a exposição às radiações”, explica Tablian.

É justamente aí que os astronautas se tornam ainda mais frágeis. “À medida que continuamos nos afastando, começamos a receber tipos de radiação que normalmente não encontramos perto da Terra”, observa ele. Para a medicina, isso é uma oportunidade valiosa, porque cada minuto que a equipe de Artemis II passa além desse limite oferece dados extremamente importantes. Segundo Tablian, o momento é ideal para identificar “biomarcadores específicos que ajudem a entender como o corpo mudou ao longo dessa curta missão de dez dias”, etapa essencial para formar uma “base de dados preditiva” indispensável a futuras permanências prolongadas no espaço.

“Entender o que o corpo suporta em termos de efeitos da radiação é um enorme campo de investigação nesta missão específica”, ressalta, já que esta é uma das primeiras ocasiões em que podemos observar, com tamanha precisão, a resposta de organismos humanos em nível celular sob condições tão extremas.

Nesse sentido, Artemis II está entre as missões mais relevantes já acompanhadas pela medicina espacial. Essa viagem para além da magnetosfera servirá como referência para validar modelos preditivos sobre os efeitos biológicos que, até agora, se apoiavam apenas em simulações feitas na Terra. Na era Apollo, entre 1961 e 1972, ainda não era possível mensurar com precisão o que os pioneiros haviam acumulado em seus deslocamentos espaciais. Não existiam as ferramentas atuais de sequenciamento genético e análise molecular, e, para Tablian, Artemis II é provavelmente a melhor chance de preencher essa lacuna teórica. O retorno da cápsula Orion está previsto para 11 de abril, se tudo correr bem, e a expectativa já é grande pelos primeiros exames de acompanhamento após a missão, assim que a NASA divulgar os resultados.

Além da radiação, a missão também ajuda a ampliar o entendimento sobre como o corpo reage ao isolamento, à distância da Terra e ao ambiente de microgravidade por períodos mais longos. Esse tipo de observação interessa não só para voos à Lua, mas também para a preparação de viagens mais ambiciosas, nas quais o tempo longe do planeta será muito maior e a margem para erro, bem menor.

Outra consequência importante é prática: os dados obtidos podem orientar o desenvolvimento de blindagens mais eficientes, protocolos de monitoramento médico em tempo real e estratégias de prevenção para preservar a saúde dos astronautas. Em outras palavras, o que Artemis II aprende agora pode definir o padrão de segurança das próximas gerações de missões tripuladas.

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