Este relatório joga luz sobre a eficácia muito limitada dos auxílios públicos destinados ao carro elétrico.
A Corte de Contas da França acaba de publicar um estudo instigante sobre os subsídios públicos à indústria automotiva, com foco especial na eletrificação dos veículos no país. O documento, destinado ao Senado francês, evidencia que esses gastos têm um retorno bastante restrito e defende mudanças para os próximos anos.
Os autores lembram, em especial, que o Estado desembolsou quase 9,4 bilhões de euros entre 2017 e 2024 para beneficiar 2,47 milhões de pessoas e incentivar a compra de carros elétricos. Nesse conjunto entram, sobretudo, o bônus ecológico, o prêmio de conversão e o leasing social implantado após a reeleição de Emmanuel Macron.
Se olharmos apenas o lado positivo, dá para reconhecer a evolução da fatia de mercado dos veículos elétricos, que chega a 20% em 2025, abaixo dos 26% esperados. Ainda assim, tudo indica que o país ficará bem distante da meta de 40% em 2027.
Direcionar os auxílios aos lares de menor renda
Citada pelo Le Parisien, Carine Camby, presidente da primeira câmara, acrescenta: “Em 2024, foram produzidos 180 mil veículos elétricos e 300 mil veículos híbridos, enquanto o programa França 2030 estabelecia a meta de fabricar 2 milhões de veículos elétricos em 2030. Estamos longe disso.”
Do mesmo modo, como observam com razão nossos colegas do Frandroid, a política de ajuda custa muito caro ao Estado em relação ao seu nível de eficácia. A Corte de Contas aponta, por exemplo, que o bônus ecológico impulsionou a compra de 56 mil veículos de um total de 165 mil em 2021. Isso leva Carine Camby a afirmar que “o custo médio é alto, em torno de 17.800 euros por carro.”
Na prática, o relatório conclui que os programas adotados beneficiaram sobretudo as famílias mais ricas, funcionando quase como um ganho inesperado para esse público. Em outras palavras, mesmo sem esses mecanismos, muitas dessas compras provavelmente teriam acontecido.
Por isso, o documento sustenta que o sistema deveria ser concentrado nos consumidores de menor renda até 2027. Além de mais justo, esse redirecionamento também ajudaria a reduzir as despesas do Estado, com uma economia estimada em quase 515 milhões de euros, considerando um comportamento de compra inalterado.
Outro ponto que ganha importância nesse debate é o ecossistema ao redor do carro elétrico. Não basta incentivar a aquisição do veículo: a expansão da rede de recarga, a oferta de modelos acessíveis e a previsibilidade das regras também pesam na adoção em larga escala. Sem esses elementos, os subsídios tendem a gerar efeitos limitados e pouco duradouros.
Além disso, o avanço do mercado de usados pode tornar a eletrificação mais ampla e socialmente mais equilibrada. Quando o acesso ao carro elétrico deixa de depender apenas de um veículo zero quilômetro, cresce a chance de o benefício público alcançar mais famílias e produzir resultados mais consistentes para a transição energética.
Se o tema lhe interessa, vale consultar o texto completo aqui.
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