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TikTok cede nos Estados Unidos e passa para controle americano

Pessoas em reunião formal analisando equipamentos eletrônicos e anotando informações em pranchetas.

TikTok acabou cedendo. Depois de anos de negociação com as autoridades dos Estados Unidos, a ByteDance assinou um acordo para entregar o controle do seu algoritmo a uma empresa americana. Donald Trump saiu fortalecido dessa disputa.

TikTok nos Estados Unidos: algoritmo, dados e controle americano

Chegou ao fim a longa novela do TikTok no mercado norte-americano. Após anos de confronto diplomático entre Washington e Pequim, a rede social com 170 milhões de usuários nos Estados Unidos recuou de vez. A ByteDance, sua controladora chinesa, assinou os acordos obrigatórios que oficializam a transferência do comando do aplicativo para mãos americanas.

Em um memorando interno enviado aos funcionários e consultado por vários veículos de imprensa, Shou Zi Chew, diretor do TikTok, anunciou a criação de uma joint venture chamada “TikTok USDS Joint Venture LLC”. A nova empresa atuará de forma independente e terá autoridade total sobre a proteção dos dados dos usuários americanos, a segurança do algoritmo e a moderação dos conteúdos. Em outras palavras, o principal ativo tecnológico chinês ficará sob bandeira dos Estados Unidos.

Essa era a linha vermelha que Pequim afirmava jamais aceitar atravessar. Ainda assim, isso aconteceu. O algoritmo de recomendação do TikTok, sua fórmula mais valiosa, deixa de ser um segredo inacessível. Os americanos passarão a conhecer todos os elementos que tornam o aplicativo tão viciante. A nova estrutura ficará responsável por treinar novamente o algoritmo com base nos dados dos usuários dos Estados Unidos, para assegurar que o fluxo de publicações não sofra interferência externa.

TikTok e MAGA: quem assume o controle da plataforma

O controle do TikTok será distribuído entre vários investidores. Oracle, Silver Lake e o fundo de investimento emiradense MGX ficarão com 45% da joint venture, em partes iguais. Investidores atuais da ByteDance, incluindo diversos fundos americanos, manterão 30,1% da empresa, enquanto a própria ByteDance conservará os 19,9% restantes. Com isso, a companhia chinesa vira uma acionista extremamente minoritária da criação que levou ao sucesso global, justamente no maior mercado do mundo.

A relação dos novos donos parece saída de um clube de bilionários alinhados a Trump. Larry Ellison, presidente da Oracle e aliado próximo do presidente, ficará à frente das operações técnicas. Michael Dell, Rupert Murdoch e fundos como Andreessen Horowitz e Silver Lake Partners também aparecem no grupo. A General Atlantic, cujo CEO, William E. Ford, doou US$ 1,25 milhão ao movimento MAGA em janeiro de 2025, também integra o conjunto de investidores.

O próprio presidente americano fez questão de celebrar o resultado. Embora tenha admitido que, se pudesse, transformaria a rede social em algo “100% MAGA”, Donald Trump afirmou que “cada grupo, cada filosofia, cada política será tratado de forma muito justa”. A promessa, porém, deve ser recebida com a dose de ceticismo que a situação exige, sobretudo diante da composição ideologicamente homogênea do novo conselho.

Cinco anos de disputa

A assinatura encerra uma batalha que se arrastou por mais de cinco anos. Tudo começou em agosto de 2020, quando Donald Trump, então presidente, tentou proibir o aplicativo pela primeira vez. A lei aprovada pelo Congresso em 2024 e confirmada pela Suprema Corte obrigava a ByteDance a se desfazer de suas operações americanas, sob pena de banimento total. Em janeiro de 2025, o TikTok chegou a sair do ar por algumas horas antes de ser restabelecido.

A ironia da história é evidente: o homem que queria barrar o TikTok acabou se tornando seu salvador, ao lado de aliados instalados no comando. A nova empresa americana deve ser avaliada em cerca de US$ 14 bilhões, um valor considerável que tende a beneficiar os círculos mais próximos do poder.

Além da questão geopolítica, o acordo também abre uma nova fase para a própria plataforma. Mudanças na estrutura societária costumam repercutir na forma como dados são armazenados, em quais padrões de transparência passam a ser exigidos e até na relação com anunciantes e criadores de conteúdo. Em um ambiente tão sensível quanto o das redes sociais, qualquer alteração na governança vira assunto imediato para reguladores e mercado.

Também vale observar que o caso TikTok pode funcionar como referência para outras disputas envolvendo tecnologia, soberania digital e controle de algoritmos. A combinação entre pressão política, interesse empresarial e preocupação com segurança de dados mostra que esse tipo de negociação tende a se tornar cada vez mais comum em mercados estratégicos.

Agora resta saber quais serão os efeitos para os usuários. Sobre esse ponto, os especialistas não concordam. “Os usuários podem passar a ficar expostos às políticas editoriais dos novos proprietários”, alerta David Greene, da Electronic Frontier Foundation. A conclusão da operação está prevista para 22 de janeiro de 2026.

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