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Era uma vez o plano Millenium.

Jovem sentado em mesa com papéis e slides, falando ao telefone, em ambiente de sala com sofá e varanda ao fundo.

No virar do ano 2000, a SFR viu nascer os irreductíveis Millenium. A história de um plano vendido por apenas um mês, mas que deixou o operador em apuros por mais de 8 anos.

Existe um plano móvel ainda mais disruptivo do que o da Free em 2012, quando a empresa derrubou os preços praticados pelos rivais. Antes mesmo da mudança para o ano 2000, quem sacudiu o mercado foi a SFR, com uma oferta que batia de frente com o Millenium da Bouygues Telecom. A SFR o batizou de “Ilimitado Noite e Fim de Semana”, mas ele ficou tão popular - e tão lendário - que a memória coletiva embaralhou tudo: muita gente passou a chamá-lo simplesmente de “Millenium”.

Nunca um operador tinha conseguido gerar tanta atenção em torno de um plano de telefonia. Só que, por trás do sucesso, raramente um plano trouxe tanta dor de cabeça ao próprio operador - a ponto de esbarrar em questões legais. O Millenium marcou a evolução das ofertas móveis na França ao popularizar a ideia de “ilimitado” e, para os consumidores, a sensação de ter um pouco mais de liberdade.

De “Ilimitado Noite e Fim de Semana” a Millenium: o primeiro plano ilimitado

A linha do tempo começa em 1º de dezembro de 1999, quando a SFR colocou no ar o “Ilimitado Noite e Fim de Semana”. A iniciativa era uma resposta forte à Bouygues Telecom, que havia acabado de lançar o “verdadeiro” plano Millenium, com chamadas ilimitadas durante o fim de semana. Era a primeira vez que operadores apostavam em ofertas que traziam, de forma explícita, a noção de ilimitado.

Para aderir, era preciso aceitar um preço alto: 240 francos por mês. Ainda assim, na época, muitos enxergaram ali uma oportunidade única. O motivo: era o único plano que permitia telefonar sem limites das 20h até as 8h da manhã, em qualquer dia da semana. Fora dessa faixa de horário, o cliente tinha 2 horas de comunicação por mês. Quando chegava o fim de semana, o ilimitado valia em qualquer horário. Para completar, o atendimento ao cliente (número 800) era gratuito, assim como as ligações para telefones fixos.

O Millenium apareceu no mesmo período do lançamento do Nokia 3310, aparelho que também virou um enorme sucesso, anos antes do iPhone da Apple. Para a SFR, foi um acerto em cheio: os clientes correram para assinar. Internamente, a ideia era clara - causar impacto e enfraquecer a concorrência. O plano que inauguraria o século seria deles e ofuscaria a Bouygues. Mas, para impedir que a onda virasse um tsunami, a SFR tomou uma precaução: as chamadas gratuitas eram limitadas apenas para números SFR, uma estratégia forte de fidelização.

Corrida do ouro: 400 000 clientes e, depois, o fim das vendas

Os números foram fora da curva - algo que muitos operadores sonhariam repetir hoje. A adesão ao “Ilimitado Noite e Fim de Semana” foi tão intensa que 400 000 pessoas contrataram a oferta “promocional” lançada em 1º de dezembro de 1999. A chegada do ano 2000 parecia promissora para todo mundo, e a SFR emplacou tanto no comercial quanto no marketing. A empresa estava à frente do seu tempo.

Só que estar à frente do tempo não significava estar à frente do comportamento dos clientes. Em 16 de janeiro de 2000, a SFR já decretava o fim do “Ilimitado Noite e Fim de Semana”. Ao mesmo tempo, aquele dia marcou o início da lenda do plano “Millenium”, que ainda hoje é lembrada. Com apoio de fóruns e documentos de arquivo, o Presse-citron investigou para reconstruir o que aconteceu nesse momento histórico do mercado móvel - muito antes da chegada da Free. E foi um capítulo que se estendeu até 2008… por aí dá para medir o tamanho do caso.

Exageros de clientes e revendedores do plano

Voltando a 16 de janeiro de 2000, a SFR tomou a decisão, no mínimo, curiosa de tirar de cena um plano tão procurado. Ao retirar o “Ilimitado Noite e Fim de Semana” das lojas, o operador francês acreditou estar agindo corretamente - mas foi justamente dali em diante que a situação virou um labirinto. Para entender o problema, é preciso entender o motivo do corte: mesmo cobrando 240 francos por mês, o plano rapidamente virou um rombo, porque muitos clientes passavam as noites inteiras ao telefone.

Se tivéssemos apenas maus clientes, não teríamos hesitado em subir para 350 francos”, disse pouco depois o diretor-geral da SFR, Pierre Bardon. Os “maus clientes”, na definição da SFR, eram os que falavam mais de 7 horas por mês nos períodos “gratuitos”. Em outras palavras, quem multiplicava ligações durante a noite e consumia muito além do que a empresa teria imaginado ao fixar o preço de 240 francos. Esses excessos começaram a pesar no caixa da SFR e também na infraestrutura: com 400 000 novos clientes, a rede rapidamente ficou saturada.

Ao mesmo tempo, no mercado secundário, o Millenium virou item de colecionador, disputado como se fosse um tesouro em leilões. Como ninguém mais conseguia contratar o plano, alguns tentaram vender o telefone já com o chip por valores absurdos. A euforia tomou conta e o Millenium ganhou ainda mais aura de mito ao chegar a 65 000 francos (10 000 euros!) em certas negociações.

A SFR diante de um problema gigantesco

O ponto mais sensível é que, no dia em que foi apresentado, o Millenium foi vendido como um plano Ilimitado Noite e Fim de Semana “para a vida toda”. A frase ajudava a elevar o prestígio da oferta - mas logo se transformou em um tiro pela culatra para a SFR, que buscava uma forma de encerrar a saga dos “irreductíveis Millenium”, clientes que continuavam gerando prejuízo.

Em setembro de 2000, a SFR decidiu agir. O operador enviou uma série de cartas propondo a troca de plano em troca de um gesto comercial. Era o começo da era dos “resgates de planos”, como muita gente ainda lembra, justamente por ser algo raro. Em muitos casos, a proposta era voltar para um plano tradicional mais barato. Num movimento ainda mais estratégico, a SFR também oferecia o mesmo plano por um preço menor - só que sem a menção “para a vida toda” e com atendimento ao cliente pago.

SFR ameaça e compra briga com seus clientes

Em janeiro de 2001, mais de um ano após o lançamento, a SFR já não falava publicamente sobre o Millenium. O assunto virou tabu, e os assinantes ficaram de fora de todas as ações comerciais direcionadas aos demais clientes. Dois meses depois, em março, veio mais um abalo: o plano teve aumento de preço. A tensão só cresceu e, depois de tentar seduzir os clientes, a SFR passou a endurecer, mexendo nas condições apesar das promessas iniciais.

Para sustentar a mudança, a SFR se apoiou em um argumento jurídico: o direito francês não reconhece contratos “para a vida toda”. Para o operador, isso funcionava como uma saída - mas abria o risco de indignação generalizada e até ações por publicidade enganosa. Em paralelo, a empresa também apertou no bolso: as tarifas fora do plano passaram a ser cobradas em blocos de 15 segundos, desde o primeiro minuto de excesso.

Um plano de “prejuízo ilimitado”

Quando, afinal, o Millenium desistiu? Para escapar desse impasse, a SFR precisou esperar o mercado alcançar sua oferta - ou seja, levaria anos até que os irreductíveis Millenium encontrassem opções mais vantajosas em outros lugares. Em 2008, quase 9 anos depois do lançamento, ainda havia gente usando o “Ilimitado Noite e Fim de Semana” da SFR. “Eu realmente pretendo manter este plano para a vida toda”, disse um cliente de 22 anos ao jornal L’Humanité, em 6 de janeiro de 2001. Naquele momento, o próprio título já chamava a atenção para um plano de “prejuízo ilimitado” para a SFR.

Mesmo com todos os tropeços, o Millenium foi uma das primeiras grandes chacoalhadas no mercado de planos móveis, pressionando o setor a melhorar as ofertas e ampliar o tempo de comunicação disponível. Quando o Millenium foi lançado, o custo médio de um plano para os franceses era de 26,2 euros sem impostos. O mais popular era o “Ola” da Itinéris, antecessora da Orange, por 165 francos (menos de 25 euros). Foi preciso esperar a chegada da internet e, principalmente, da Free (2012) para que os preços voltassem a ser sacudidos - e para que o ilimitado se tornasse uma promessa realmente sustentável para os operadores.

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