Um estudo recente apontou uma implicação surpreendente da monogamia persistente nos cupins: como não havia disputa entre os espermatozoides reprodutivos de machos rivais, desapareceu a pressão evolutiva que favoreceria a mobilidade do espermatozoide - e, com o tempo, isso culminou na perda da cauda nos espermatozoides desses insetos.
Segundo os autores, essa mudança veio acompanhada do desaparecimento de diversos genes, o que ajudou a moldar a transição, altamente complexa, de ancestrais parecidos com baratas solitárias para cupins extremamente sociais. Em outras palavras, a menor capacidade de locomoção dos espermatozoides pode ser interpretada como um “custo” associado ao surgimento e à manutenção de mega-sociedades endogâmicas nesses insetos.
Evolução social: nem sempre é ganhar características novas
Para o biólogo evolutivo Nathan Lo, da Universidade de Sidney, a descoberta reforça que a evolução social não se resume a acumular novidades.
“Este trabalho mostra que entender a evolução social não é apenas sobre acrescentar novos traços”, afirma Lo, um dos autores. “Às vezes, trata-se do que a evolução decide abandonar.”
Ele acrescenta que os dados sugerem que os ancestrais dos cupins eram estritamente monogâmicos. Uma vez estabelecida a monogamia como regra, a seleção natural teria deixado de “cobrar” a manutenção de genes relacionados à motilidade espermática, abrindo caminho para sua perda ao longo das gerações.
De baratas a cupins: especialização alimentar e simplificação genética
O estudo também indica que genes, aspectos da fisiologia do desenvolvimento e o comportamento desses insetos obrigatoriamente sociais apontam a especialização alimentar como um motor central do salto rumo à vida em sociedade.
“Os cupins evoluíram de ancestrais semelhantes a baratas que passaram a morar dentro da madeira e a se alimentar dela”, explica Lo. “Nosso estudo mostra como o DNA deles mudou primeiro quando se especializaram nessa dieta pobre e depois mudou novamente quando se tornaram insetos sociais.”
Ao comparar baratas e cupins, a entomóloga Yingying Cui, da Universidade Normal do Sul da China, e colegas (incluindo Lo) observaram que os cupins apresentam um “acervo” genético menor do que o das baratas, com redução no número de genes associados a metabolismo, digestão e reprodução.
“O resultado mais inesperado é que os cupins aumentaram a complexidade social ao perder complexidade genética”, diz Lo. “Isso contraria a suposição comum de que sociedades animais mais complexas exigem genomas mais complexos.”
Além disso, vale lembrar que, ao viverem dentro de madeira - um alimento de baixo valor nutritivo - os cupins dependem fortemente de estratégias colectivas de obtenção e processamento de recursos. Essa pressão ecológica pode ter favorecido tanto a divisão de tarefas quanto ajustes finos no desenvolvimento dos indivíduos, integrando dieta, genes e organização social.
Como a comida recebida define castas: operários, rei e rainha
Outro ponto destacado é que o momento em que certos genes ligados ao metabolismo energético são activados durante o desenvolvimento - um processo influenciado por quanta comida os irmãos mais velhos fornecem - pode determinar o destino de uma larva: virar operário ou transformar-se em uma ninfa reprodutiva, potencial futura rainha ou futuro rei da colónia.
Quando recebem alimento em abundância, as larvas aceleram o desenvolvimento e acabam como operários. Já uma oferta menor de comida leva a um desenvolvimento mais lento e à formação de ninfas com perfil reprodutivo. Se essas ninfas forem posteriormente “coroada” dentro da colónia, acabam acasalando com parentes próximos.
“Esses ciclos de retroalimentação baseados na partilha de alimento permitem que as colónias ajustem com precisão o tamanho da sua força de trabalho”, explica Lo. “Eles ajudam a entender como os cupins sustentam sociedades estáveis e altamente eficientes por períodos longos.”
Esse tipo de mecanismo também sugere que a colónia funciona como um sistema de regulação: ao distribuir alimento de maneira diferente entre os jovens, os indivíduos mais velhos influenciam directamente a proporção entre trabalhadores e reprodutores, mantendo o equilíbrio necessário para crescimento, manutenção e reprodução do grupo.
Monogamia, parentesco alto e sociedades complexas - com um aviso
No conjunto, os resultados indicam que, pelo menos nos cupins, monogamia e alto grau de parentesco foram peças-chave para a construção do seu sistema social complexo. O estudo ressalta que esse caminho evolutivo não é algo que se recomendaria imitar em mamíferos - embora algumas espécies pareçam “tentar” estratégias que aumentam o parentesco dentro do grupo.
A pesquisa foi publicada na revista Ciência.
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