A Friend queria levar à Europa um colar com IA, mas nenhum país da União Europeia - incluindo a França - vai encontrar o produto à venda por lá. O motivo é claro: o dispositivo levanta dúvidas sérias sobre privacidade e sobre o tratamento de dados pessoais.
Friend, o colar com IA, e a resistência europeia
A Friend.com não conquistou simpatia no continente. Depois de uma campanha publicitária bastante polêmica no metrô de Paris, a startup norte-americana fundada em 2023 por Avi Schiffmann, ex-aluno de Harvard, teve de recuar na tentativa de vender seu produto tecnológico na Europa. O item em questão era um colar com IA pensado para fazer companhia ao usuário, ocupar o lugar de amigos e, em teoria, funcionar como um verdadeiro parceiro de vida.
Em Paris, muita gente reagiu mal à comunicação da empresa. Os cartazes espalhados pelo metrô receberam comentários escritos à mão com marcador, em tom de protesto, chamando atenção para o risco de comercialização de dados privados de usuários que poderiam conversar e até se abrir emocionalmente com seu novo “amigo” virtual. Em alguns painéis, o nome da empresa foi riscado e substituído pela palavra “inimigo”.
A rejeição europeia não se baseia apenas na má recepção pública. O colar de Friend entrou na mira das autoridades por possível descumprimento do Regulamento Geral sobre a Proteção de Dados (RGPD). Avi Schiffmann contou à redação do Les Echos, na França, que sua equipe jurídica na Europa estava trabalhando intensamente para resolver o impasse e, assim, começar a enviar o pingente ao mercado europeu.
Há um ponto de fundo importante nesse tipo de produto: acessórios vestíveis com inteligência artificial costumam captar conversas, hábitos, rotinas e até sinais emocionais do usuário. Quando esse material é processado por serviços em nuvem, surgem perguntas sobre armazenamento, consentimento, transparência e possibilidade de uso comercial dessas informações. Em mercados com regras rígidas, como o europeu, esse tipo de tecnologia costuma enfrentar resistência antes mesmo de chegar às lojas.
As peças publicitárias da Friend(.)com também repercutiram nas redes sociais. Muitos internautas manifestaram repulsa ao ver slogans considerados especialmente sinistros, palavra usada para descrever algo que causa desconforto, medo ou desconfiança.
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A trajetória do produto nos Estados Unidos e no Canadá
Apesar da dificuldade na Europa, o pingente foi colocado à venda nos Estados Unidos e no Canadá no ano passado, ainda que sem um grande desempenho comercial. Em Nova York, a empresa também apostou alto em divulgação: segundo o próprio chefe da companhia em declaração à Fortune, a campanha publicitária custou cerca de US$ 1 milhão.
Na metrópole norte-americana, os cartazes igualmente foram alvo de vandalismo. O fundador, que tem 22 anos, levou a situação com bom humor e chegou a fotografar uma das peças danificadas.
A reação a Friend mostra como produtos de companhia baseados em IA entram rapidamente numa zona delicada entre inovação, intimidade e vigilância. Quando a proposta envolve “amizade” artificial, a discussão deixa de ser apenas tecnológica e passa a tocar em confiança, dependência emocional e limites éticos - temas que pesam ainda mais quando o público é europeu e as regras de proteção de dados são mais exigentes.
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