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Liquidação do Instituto Nacional do Consumo coloca *60 Milhões de Consumidores* diante da busca por um comprador

Mulher sentada em escritório lendo revista, com caixas, balança de justiça e material de escritório na mesa.

O Diário Oficial publicou neste domingo, 29 de março, o decreto que formaliza a liquidação do Instituto Nacional do Consumo, a estrutura pública que edita, desde 1966, a revista mensal 60 Milhões de Consumidores. Depois de seis décadas de independência editorial total, o título passa a ter três meses para encontrar um comprador privado.

A decisão já constava da lei orçamentária de 2026 e foi validada pelo governo por meio do artigo 49.3. A pressão dos trabalhadores, ao que tudo indica, não foi suficiente para reverter a medida.

No fim de 2025, o governo havia anunciado o fechamento do instituto com base em argumentos financeiros: um rombo de 719 mil euros diante de um faturamento de 11,6 milhões de euros em 2024. Pouco depois, cerca de cem jornalistas, eleitos e cientistas denunciaram o que chamaram de “execução” da revista.

Os sindicatos, por sua vez, apontaram uma contradição evidente: encerrar o instituto custaria entre 8 e 11 milhões de euros, valor muito superior ao déficit que seria necessário cobrir. Além disso, o organismo voltou ao azul em 2025, com lucro de 236 mil euros. Na prática, portanto, ele já não registrava prejuízo no momento em que o decreto de dissolução foi assinado.

Em termos mais amplos, a decisão também levanta uma questão central para a imprensa especializada: o que acontece quando um veículo construído sobre investigação, comparação de produtos e defesa do consumidor passa a depender de um novo proprietário? Em publicações desse tipo, a autonomia editorial não é um detalhe administrativo, mas a base que garante credibilidade junto ao público.

O que vem a seguir para o Instituto Nacional do Consumo?

O texto prevê a nomeação de um liquidante por um período de nove meses a partir de 31 de março de 2026. Sua tarefa será manter a atividade jornalística enquanto se tenta localizar um comprador privado. O prazo para essa busca é de três meses, podendo ser prorrogado se houver necessidade. Caso nenhum interessado apareça, caberá ao liquidante encerrar as atividades. Os ativos, então, poderão ser vendidos separadamente.

O problema é que o decreto não menciona o destino dos cerca de 60 funcionários da revista. Essa lacuna preocupa o sindicalista Lionel Maugain, da CFDT. Sem garantias jurídicas para preservar a independência editorial do título, ele teme que 60 Milhões de Consumidores acabe convertido em um “órgão de opinião”. O Ministério do Comércio, por outro lado, afirma estar dando “atenção extrema” ao processo de venda e assegura que “a escolha do comprador será feita no interesse do título”.

Uma revista de utilidade pública

O que está em jogo vai muito além de uma questão de balanço financeiro. Há 60 anos, 60 Milhões de Consumidores opera sem publicidade, sem parcerias comerciais e, portanto, sem conflitos de interesse. Foi justamente essa independência integral que permitiu ao veículo revelar escândalos de grande repercussão, como a presença de substâncias tóxicas em cosméticos, fraudes escondidas em letras miúdas de contratos de seguro e até a venda de bonecas com conteúdo pedopornográfico na plataforma Shein.

Para os leitores, a sobrevivência de uma revista com esse perfil significa também a manutenção de um espaço de referência para comparar produtos, identificar abusos e orientar decisões de compra com base em testes e apurações independentes. Em um mercado cada vez mais saturado por publicidade disfarçada de recomendação, essa função crítica se torna ainda mais valiosa.

A liquidação ocorre, além disso, em um momento já delicado para a imprensa francesa. Em dificuldades há tempo, o setor enfrenta mudanças profundas provocadas pela expansão da inteligência artificial. O grupo Prisma Media, maior conglomerado do país, inclusive se prepara para cortar 261 postos de trabalho.

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