O grupo finlandês vem se encaixando, em silêncio, na nova era da inteligência artificial.
Durante anos, a marca que definiu a fase inicial da vida móvel pareceu andar em marcha lenta enquanto o restante da tecnologia avançava em alta velocidade. Essa narrativa está mudando: a Nokia está se transformando em uma empresa de infraestrutura e IA, com a ambição de operar nos bastidores da próxima onda de redes digitais e centros de dados.
Dos tijolos ao quase desmembramento
No início dos anos 2000, a Nokia parecia inalcançável. O resistente 3310, o toque monofônico, a telinha minúscula com Snake: aqueles aparelhos estavam por toda parte. Analistas da CCS Insight estimam que a Nokia controlava mais de um quarto do mercado mundial de celulares naquela época, e a companhia sozinha respondia por cerca de 4% do PIB da Finlândia.
A cultura interna do grupo girava em torno de dispositivos simples e confiáveis. Anos depois, o ex-presidente executivo Jorma Ollila descreveria a empresa como obcecada por celulares intuitivos, capazes de funcionar em condições severas e em redes fracas. Essa lógica fazia sentido antes dos celulares inteligentes, quando duração de bateria e resistência pesavam mais do que aplicativos.
Então veio 2007. O primeiro iPhone da Apple não apenas incorporou uma tela sensível ao toque; ele alterou a própria definição de telefone. A Nokia subestimou a velocidade com que ecossistemas de programas e lojas de aplicativos tomariam o lugar do hardware como principal campo de disputa.
A empresa que um dia ditava as regras dos celulares passou, de repente, a jogar pelas regras de programas de outra companhia.
A reação veio tarde e na direção errada. Em 2011, a Nokia apostou no Windows Phone da Microsoft para sustentar a linha Lumia. Com isso, ficou fora da dupla dominante formada por Android e iOS, que crescia rapidamente. Os desenvolvedores nunca migraram em massa para o Windows Phone, os catálogos de aplicativos continuaram enxutos e o interesse do público foi se esvaziando.
O impacto financeiro foi duro. A receita da Nokia, que havia alcançado 37,7 bilhões de euros em 2007, caiu para 10,7 bilhões de euros em 2014. No mesmo ano, o grupo vendeu sua divisão de dispositivos e serviços para a Microsoft por 5,4 bilhões de euros, encerrando de fato a disputa no mercado de celulares que um dia dominou.
Uma transição dolorosa para as redes
Depois de abandonar os celulares, a Nokia tentou se reinventar como uma empresa puramente voltada à infraestrutura de telecomunicações. Um movimento marcante ocorreu em 2015, com a compra da fabricante franco-americana Alcatel-Lucent por 15,6 bilhões de euros. O negócio ampliou a presença da Nokia em redes centrais, banda larga fixa e cabos submarinos.
Mas uma batalha maior já estava em curso. As campeãs chinesas Huawei e ZTE despejaram recursos em redes 4G e 5G, reduziram preços e conquistaram contratos no mundo todo. A Nokia teve dificuldade para preservar margens e participação em um segmento no qual governos e reguladores também intensificaram a pressão geopolítica.
A reestruturação virou rotina. Só na França, a Nokia já abriu sete rodadas de cortes de postos desde 2016. O plano mais recente elimina 427 posições em uma força de trabalho de cerca de 2.300 pessoas, algo próximo de uma em cada cinco vagas. Pressão semelhante atinge equipes em outros países europeus, à medida que o grupo reduz atividades tradicionais de telecomunicações e direciona capital para novas frentes de crescimento.
A reinvenção da Nokia depende de uma troca clássica: investimento pesado em infraestrutura guiada por IA enquanto empregos legados desaparecem.
A Nokia e o superciclo da IA
A nova história de crescimento gira em torno de uma frase simples que os executivos repetem: “capturar o superciclo da IA”. Para a liderança da Nokia, a inteligência artificial não é um produto isolado, mas uma camada que passará a existir dentro de cada rede, cada centro de dados e cada sistema industrial.
Para se alinhar a essa visão, o grupo se reorganizou em dois grandes segmentos a partir de janeiro: infraestrutura de rede e redes móveis. A ideia é simplificar a estrutura, concentrar esforços em plataformas escaláveis e incorporar capacidades de IA a cada linha de produto.
A empresa mira um lucro operacional comparável anual entre 2,7 bilhões e 3,2 bilhões de euros até 2028. Para investidores queimados pelo colapso pós-iPhone, essa meta sinaliza confiança de que o novo portfólio - redes ópticas, roteamento central, 5G privado e programas assistidos por IA - pode gerar margens mais estáveis do que o antigo negócio de aparelhos.
Infinera: a porta de entrada para redes ópticas prontas para IA
O sinal mais claro dessa mudança veio em junho de 2024, quando a Nokia anunciou a aquisição da especializada norte-americana Infinera em um negócio avaliado em 2,3 bilhões de dólares. A Infinera constrói sistemas ópticos de transporte de alta capacidade, a espinha dorsal que move dados entre centros de dados e entre continentes.
Esses sistemas agora sustentam cargas de trabalho de IA. Treinar grandes modelos de linguagem ou executar ferramentas de IA generativa exige conjuntos de unidades de processamento gráfico dentro dos centros de dados. O tráfego entre esses conjuntos, e entre regiões de nuvem, dispara à medida que as empresas alimentam os modelos com dados e distribuem serviços orientados por IA aos usuários.
Controlar o transporte óptico é controlar as rotas invisíveis que alimentam os centros de dados de IA.
O mercado reagiu rapidamente: a ação da Nokia subiu cerca de 25% após o anúncio da Infinera, levando a avaliação da companhia para perto de 32 bilhões de euros. Os investidores enxergaram não só sinergias de custo, mas também a chance de a Nokia se posicionar no centro da expansão dos centros de dados de IA, ao lado de provedores de nuvem e operadoras de hiperescala.
O sinal bilionário da Nvidia
O segundo pilar da retomada apareceu em novembro, quando a Nvidia investiu cerca de 1 bilhão de dólares no capital da Nokia. A Nvidia, hoje avaliada em mais de 5 trilhões de dólares na bolsa, tornou-se sinônimo de chips de IA e de clusters de unidades de processamento gráfico.
A parceria vai além do financiamento. A Nokia ganha acesso técnico mais estreito às plataformas da Nvidia para redes orientadas por IA, pesquisa em 6G e computação na borda. Na prática, isso pode significar projetos de referência conjuntos em que roteadores e unidades de rádio da Nokia se comuniquem nativamente com servidores de processamento gráfico da Nvidia, reduzindo latência e consumo de energia nas cargas de trabalho de IA.
Para a Nvidia, a aliança garante uma rota mais profunda dentro das redes de telecomunicações, um espaço em que futuros serviços de IA - do jogo em nuvem às comunicações imersivas - precisarão de integração estreita entre rádio, transporte e computação.
- A Nokia leva relações globais com operadoras e equipamentos de padrão telecom.
- A Nvidia contribui com unidades de processamento gráfico, estruturas de programa e experiência em IA.
- As duas companhias miram 6G, interconexão de centros de dados e automação de rede reforçada por IA.
IA na estrada: parceria com a NestAI
As ambições da Nokia vão além dos equipamentos clássicos de telecomunicações. Em novembro, o grupo anunciou uma parceria estratégica com a NestAI, empresa que desenvolve IA de próxima geração para veículos autônomos e aplicações de defesa.
A proposta é combinar os algoritmos de percepção e decisão da NestAI com as ferramentas de conectividade segura e de baixa latência da Nokia. Veículos autônomos e sistemas não tripulados produzem volumes enormes de dados de sensores, que precisam de ligações rápidas e confiáveis, especialmente em cenários militares ou de infraestrutura crítica.
A IA de borda, os enlaces de rádio seguros e os sistemas automatizados de decisão estão convergindo, e a Nokia quer que seus equipamentos fiquem exatamente nesse ponto de encontro.
O presidente executivo da Nokia, Justin Hotard, apresentou o acordo como uma forma de acelerar novas capacidades para defesa e segurança nacional. A parceria também permite testar conectividade reforçada por IA em ambientes severos e de alto risco, nos quais os requisitos de desempenho superam os das redes voltadas ao consumidor.
A estratégia de rede da Nokia com IA em primeiro lugar
Para operadoras e governos, redes guiadas por IA significam mais do que slogans de marketing. A infraestrutura moderna usa cada vez mais aprendizado de máquina para administrar o consumo de energia, antecipar congestionamentos e detectar ataques cibernéticos antes que atinjam os clientes.
A Nokia quer montar um portfólio em que a IA funcione como camada de controle incorporada. Entre os usos mais típicos estão:
| Área | Papel da IA |
|---|---|
| Desenvolvimento de RAN e 6G | Otimizar em tempo real o uso do espectro e a configuração das antenas. |
| Interconexão de centros de dados | Roteirizar o tráfego em links ópticos com base em cargas previstas. |
| Empresas e 5G privado | Automatizar fatias de rede para fábricas, portos e minas. |
| Monitoramento de segurança | Identificar anomalias e bloquear fluxos suspeitos na borda. |
| Eficiência energética | Desligar ou reduzir o funcionamento dos equipamentos quando a demanda cai. |
Essa mudança também altera com quem a Nokia conversa. A empresa agora busca provedores de nuvem, operadores de centros de dados e startups de IA, e não apenas as operadoras tradicionais. Os contratos passam a reunir equipamentos, programas, suporte e análises movidas por IA, tornando os relacionamentos mais longos e mais integrados.
Em mercados emergentes, essa lógica pesa ainda mais, porque as operadoras precisam ampliar cobertura e, ao mesmo tempo, reduzir custo por gigabyte. Em países como o Brasil, onde redes privadas de 5G, centros de dados regionais e projetos de automação industrial avançam em paralelo, fornecedores capazes de integrar rádio, fibra, programas e IA tendem a ganhar espaço com mais rapidez.
Também muda o perfil das equipes necessárias para sustentar esse novo modelo. À medida que as redes se tornam mais automatizadas, cresce a demanda por profissionais que unam engenharia de telecomunicações, análise de dados e segurança cibernética. Isso favorece empresas que conseguem atualizar seus quadros internos em vez de depender apenas de contratações externas.
Os riscos ocultos de uma retomada guiada por IA
A aposta em IA traz riscos evidentes. Os gastos de capital continuam elevados, a concorrência segue dura e o ciclo de entusiasmo pode avançar mais rápido do que as implantações reais. Se operadoras e provedores de nuvem desacelerarem os investimentos em IA por causa de regulação, custos de energia ou reação pública, a Nokia pode enfrentar outra distância entre ambição e receita.
A disrupção da força de trabalho também levanta questões sociais e políticas. Cada ganho de eficiência obtido com automação ou gestão de rede baseada na nuvem pode significar menos engenheiros de campo, menos equipes de suporte e menos times de pesquisa e desenvolvimento em países de custo alto. A repetição dos cortes na França ilustra bem essa tensão.
Há ainda um risco tecnológico: modelos de IA dentro das redes precisam de dados de qualidade e de governança rígida. Um algoritmo mal configurado, que desligue equipamentos com agressividade excessiva ou classifique o tráfego errado como malicioso, pode provocar interrupções. A Nokia, assim como rivais como Ericsson e Huawei, precisa combinar automação com supervisão humana, registro detalhado e mecanismos de reversão.
Por que a história da Nokia importa para outras empresas estabelecidas
A trajetória da Nokia, de campeã dos celulares a especialista em infraestrutura guiada por IA, oferece um caso de estudo para qualquer empresa de tecnologia tradicional pressionada pelo mercado. A primeira lição tem a ver com timing. Demorar demais para sair de dispositivos e migrar para ecossistemas de programas custou à Nokia o mercado de consumo. Desta vez, a companhia se move cedo, alinhando-se à demanda por infraestrutura de IA antes mesmo de o padrão 6G se estabilizar.
A segunda lição está no foco. Em vez de tentar repetir um gadget visível para o consumidor, a Nokia mira o encanamento da economia digital: espinhas dorsais ópticas, rádio seguro, tecido de centros de dados e sistemas de controle por IA. Essas áreas crescem de forma mais discreta, mas geram receita recorrente e barreiras técnicas profundas.
Outros setores observam esse roteiro. Empresas de automação industrial, fornecedores automotivos e companhias de energia avaliam escolhas parecidas: permanecer no hardware legado ou reconstruir seus portfólios em torno de plataformas prontas para IA e receita recorrente de programas. O avanço da Nokia, seja como sucesso ou como fracasso, alimentará debates de conselho muito além das telecomunicações.
Para profissionais que trabalham com redes em grande escala, a virada da Nokia também mostra para onde caminham vagas e competências. A experiência em engenharia de radiofrequência e fibra óptica continua importante, mas os cargos passam a se misturar com ciência de dados, operações de aprendizado de máquina, orquestração em nuvem e segurança cibernética. Engenheiros que entendem tanto a física do rádio quanto as cadeias de IA provavelmente estarão no centro da próxima onda de inovação em redes.
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