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A queda nas tarifas de eletricidade em 2025 pode ser apenas uma trégua curta

Casal sentado à mesa analisando contas, calculadora, moedas e gráfico no laptop à frente.

Uma redução observada nas tarifas de eletricidade em 2025 talvez tenha dado aos consumidores um alívio passageiro. No entanto, um estudo recente da associação francesa de defesa do consumidor UFC-Que Choisir indica que as contas devem subir de forma expressiva já em 2026.

A fatura de eletricidade dos franceses teve uma pausa modesta em fevereiro de 2025, com recuo de 15%. Mas esse respiro não deve durar. Em 2026, a mesma conta pode sofrer uma alta abrupta, com acréscimo de até 233 euros por ano para uma residência média. Esse salto está ligado a uma mudança regulatória importante, inserida discretamente na última lei orçamentária.

O fim do mecanismo de acesso regulado à eletricidade nuclear histórica

O mecanismo de acesso regulado à eletricidade nuclear histórica permite hoje que os fornecedores comprem da EDF parte da produção nuclear por 42 euros por megawatt-hora. Trata-se de um valor fixo, bem abaixo das cotações praticadas no mercado atacadista.

Esse dispositivo, criado para proteger os consumidores das oscilações do mercado, chega ao fim no encerramento de 2025. O sistema que o substituirá, definido na lei orçamentária de 2025 e aprovado por meio do artigo 49.3, muda completamente a lógica vigente. Segundo a UFC-Que Choisir, o novo modelo abandona a ideia de preço regulado e passa a adotar uma cobrança totalmente vinculada às cotações de mercado.

Quem será mais atingido pela alta da conta de luz?

Para uma residência que consome 6.000 kWh por ano, com contrato de 6 kVA e enquadrada na tarifa regulada, a conta anual deve aumentar entre 190 e 233 euros. Essa projeção considera as condições atuais do mercado, um cenário que ainda pode se agravar se houver tensão no abastecimento de energia.

Os lares mais expostos serão aqueles aquecidos com eletricidade, sobretudo os que vivem em imóveis com isolamento térmico deficiente. Em uma casa individual com consumo de 15.000 kWh por ano, a elevação pode ultrapassar 500 euros anuais, ampliando o risco de empurrar milhares de famílias adicionais para a pobreza energética.

A contradição é evidente. A França conta com uma frota nuclear amplamente amortizada, capaz de gerar eletricidade com custo estável e relativamente baixo. Mesmo assim, as contas dos consumidores devem disparar porque a referência passará a seguir de forma sistemática os preços dos mercados europeus, muito mais altos.

Lucros extras e redistribuição incompleta

O novo modelo prevê a tributação dos chamados “lucros extraordinários” que a EDF possa obter ao vender sua energia nuclear pelo preço de mercado. Ainda assim, a UFC-Que Choisir identifica várias fragilidades nessa arquitetura.

Primeiro, os patamares que acionam a cobrança foram definidos de modo a assegurar à EDF uma margem confortável. Depois, a arrecadação desse tributo, que deveria ser repassada aos consumidores, não retornaria integralmente para eles.

A reforma aparece justamente no momento em que as autoridades públicas estimulam a transição para sistemas de aquecimento elétrico, como as bombas de calor. Com a eletricidade mais cara, a viabilidade financeira desses investimentos pode ficar seriamente comprometida.

Além do impacto direto no orçamento doméstico, uma alta prolongada tende a alterar decisões de consumo e de investimento das famílias. Em muitos casos, a troca de equipamentos ou a mudança para soluções mais eficientes depende justamente da previsibilidade da tarifa. Se o custo da energia fica instável, o retorno esperado dessas melhorias se alonga e o planejamento financeiro se complica.

Diante desse quadro, a UFC-Que Choisir propõe várias medidas: revisar os limites que disparam a taxação dos ganhos da EDF, aumentar de forma significativa essa tributação e garantir que todo o valor arrecadado seja devolvido aos consumidores. A associação também defende a criação de uma comissão multipartidária, com participação de representantes dos consumidores, para redesenhar a regulação do mercado de eletricidade.

Como se preparar para o aumento da conta de luz

Enquanto isso não acontece, as famílias francesas precisam se preparar para um choque tarifário inédito em 2026. O paradoxo fica ainda mais forte em um país que, apesar de tudo, dispõe de uma das produções de eletricidade mais competitivas da Europa.

Para reduzir a exposição a essa alta, acompanhar o consumo mensal e comparar ofertas com atenção pode fazer diferença, especialmente em lares que usam aquecimento elétrico. Pequenas medidas de eficiência, como melhorar o isolamento, ajustar a temperatura interna e trocar aparelhos antigos por versões mais econômicas, também podem amenizar o peso da fatura ao longo do ano.

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