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Compras de Black Friday: quando a pressa faz o bolso sofrer

Jovem surpreso olhando para o cérebro iluminado em um laptop enquanto está sentado à mesa com café.

Todo mês de novembro, a Black Friday chega acompanhada de promessas grandiosas de economias enormes e ofertas "só por um dia". Somos cercados por promoções que parecem boas demais para deixar passar. Mas, por trás disso tudo, existe algo bem mais estratégico.

A Black Friday não se resume a um dia - hoje, mais de duas semanas - de descontos. Ela também funciona como um evento psicológico, cuidadosamente montado para explorar a forma como o cérebro toma decisões.

Entender um pouco da ciência por trás desse processo pode nos ajudar a perceber quando estamos sendo empurrados a gastar mais do que pretendíamos.

Black Friday: compre depressa, gaste mais

Quando precisamos escolher entre opções, como decidir se vale a pena comprar uma TV nova, o cérebro compara indícios a favor e contra cada alternativa. Levamos em conta preço, recursos, avaliações e o que cabe no orçamento. Assim que sentimos ter informação suficiente, decidimos.

Em geral, esse processo leva tempo. Quanto mais importante a decisão, mais evidências costumamos querer reunir.

Mas, quando somos colocados sob pressão, isso muda. O cérebro reduz o nível de informação necessário antes de bater o martelo. Em outras palavras, a pressão do tempo nos faz decidir mais rápido e com menos base.

Isso pode ser útil quando agir rápido realmente importa. Se uma aranha cair no seu braço, você não vai ficar analisando com calma os prós e contras antes de sacudi-la.

Só que, nas promoções de Black Friday, esse mesmo mecanismo de decisão acelerada pode nos levar a compras por impulso.

“Meu Deus, está quase acabando”

Além de explorar a "urgência", as promoções de Black Friday também apelam para a "escassez". Sabemos que a oferta dura pouco e que muita gente está comprando ao mesmo tempo. Isso cria uma sensação forte de competição: se não agirmos logo, vamos perder a chance.

Enquanto você navega em busca de uma TV, o site informa que "restam apenas 8 unidades no estoque" e que "12 pessoas têm este item no carrinho". De repente, tudo parece uma corrida. Mesmo que você não estivesse planejando comprar imediatamente, pode sentir mais pressão para "adicionar ao carrinho" antes que seja tarde demais.

Essa percepção de escassez muda a maneira como o cérebro processa as informações. Quando acreditamos que algo está disponível em quantidade limitada, atribuímos mais valor ao item, como se ele devesse ser bom simplesmente porque outras pessoas também o colocaram no carrinho.

No que eu estava pensando?

Quando decidimos com pressa, usamos menos evidências e ficamos mais propensos a errar, um fenômeno psicológico conhecido há muito tempo como compromisso entre velocidade e precisão.

Sob pressão de tempo, o cérebro tenta encontrar atalhos para avaliar as opções, como o número de pessoas que estão visualizando um item. Só que isso pode ser uma informação menos útil do que dados como garantia, qualidade do produto ou valor no longo prazo.

Sinalizar que algo está escasso também pode nos desestimular a buscar mais informações. Se parece que um produto pode acabar, gastar tempo comparando preços ou lendo avaliações passa a parecer arriscado. O produto pode desaparecer enquanto ainda estamos pensando.

O cérebro prefere resultados previsíveis e tenta evitar riscos desnecessários. Então, em vez de procurar mais dados, agimos rapidamente.

Decisões rápidas nem sempre são ruins. Agir depressa pode economizar tempo ou evitar danos quando não temos informações completas. Isso pode incluir sair de um prédio quando o alarme de incêndio dispara, mesmo sem certeza de que há, de fato, um fogo.

Mas, na Black Friday, os varejistas criam uma urgência artificial. Contadores regressivos, alertas de "estoque limitado" e faixas de "somente hoje" são pensados para imitar uma escassez real, empurrando o cérebro para um ritmo acelerado de decisão.

Quando essa sensação de urgência entra em ação, o raciocínio mais racional fica em segundo plano. Deixamos de perguntar "Eu realmente preciso disso?" e passamos a pensar "E se eu perder essa oportunidade?".

É o tipo de pensamento que leva você a comprar uma TV nova que é apenas um pouco melhor do que a que já tem.

A Black Friday parece uma celebração das economias, mas também é uma aula prática de ciência do comportamento e do cérebro. Cada contagem regressiva, janela emergente e aviso de "restam só 3" é cuidadosamente criado para captar sua atenção e reduzir o tempo de decisão.

Saber como essas táticas funcionam pode ajudar você a manter o controle.

4 dicas para manter o controle na Black Friday:

  1. Planeje antes da pressão começar – pesquise o que você realmente precisa e reúna mais informações antes da temporada de promoções. Isso ajuda quando o cérebro precisa decidir sob pressão de tempo.
  2. Defina um orçamento e deixe-o visível – determine quanto você aceita gastar e lembre-se disso enquanto compra. Isso ajuda a neutralizar o "efeito da escassez", lembrando ao cérebro que outros limites também existem.
  3. Faça uma pausa antes de comprar – quando sentir pressão, pare por um minuto. Esse intervalo permite que o cérebro acompanhe melhor a empolgação.
  4. Pergunte a si mesmo: "Eu ainda quereria isso pelo preço normal?" Isso ajuda o cérebro a se concentrar no valor real do item.

Não há problema nenhum em aproveitar uma boa oferta. Mas, quando você estiver no meio de toda essa agitação, vale lembrar o que está acontecendo dentro do seu cérebro - e quem realmente sai ganhando.

Tijl Grootswagers, pesquisador sênior bolsista ARC DECRA em Neurociência Cognitiva, Universidade de Sydney Ocidental, e Daniel Feuerriegel, bolsista ARC DECRA e chefe do Laboratório de Predição e Tomada de Decisão, Universidade de Melbourne

Este artigo foi republicado de A Conversa sob uma licença Creative Commons. Leia o artigo original.

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