Entre a escalada dos preços e a preocupação ambiental, o novo grupo nascido da fusão entre Next Mobiles e Mobile.club quer mudar de vez a forma como compramos e usamos smartphones.
Há uma contradição bem típica da França. Já adotamos a música por assinatura e o leasing com opção de compra para os carros, mas o smartphone ainda é, para muita gente, um bem que precisa ser comprado a qualquer custo. Só que, com modelos topo de linha ultrapassando com folga a marca de 1.500 euros, essa lógica começa a perder força.
“O mercado francês ainda está bastante atrasado no tema do aluguel. Nos Estados Unidos, por exemplo, os celulares são alugados em cerca de 80% dos casos. Isso também é muito desenvolvido na Inglaterra e na Alemanha. A França ainda é um mercado que precisa ser convencido, mas temos certeza de que esse será o futuro”, analisa Damien Morin, diretor-presidente do grupo criado pela recente fusão entre Next Mobiles e Mobile.club, em entrevista à Presse-citron.
Porque comprar hoje um smartphone de alto padrão significa assumir sozinho a desvalorização, o conserto e a revenda. Já o aluguel transforma o aparelho em um serviço completo: o medo de uma pane ou de uma quebra que deixe seu instrumento de trabalho parado por semanas deixa de existir. “Com a gente é muito mais simples: se o cliente quebra o iPhone 15, enviamos imediatamente o mesmo modelo”, exemplifica o executivo.
Além disso, o modelo de assinatura também resolve um problema cada vez mais comum: a necessidade de trocar de aparelho com frequência sem ficar preso à burocracia da revenda. Para quem gosta de acompanhar os lançamentos e não quer imobilizar capital em um bem que perde valor rapidamente, a mensalidade oferece previsibilidade, acesso contínuo às novidades e menos dor de cabeça no fim do ciclo de uso.
Da mesma forma, o aluguel atende ao desejo de atualização constante de muitos apaixonados por tecnologia. “Nossos clientes querem trocar de modelo todos os anos para aproveitar os lançamentos mais recentes sem precisar lidar com a revenda”, diz Damien Morin, em referência à venda em plataformas de compra e venda como o LeBonCoin. Um luxo que agora começa em 14,90 euros por mês.
A união estratégica do Next Mobiles e do Mobile.club para conquistar a Europa
Foi justamente para atender a essa demanda crescente que os concorrentes Next Mobiles e Mobile.club se juntaram em fevereiro passado. Juntos, eles formam um gigante do setor, com 70 mil contratos ativos e 30 milhões de euros em receita recorrente. Para Damien Morin, o movimento foi uma decisão estratégica evidente para ganhar peso diante dos vizinhos europeus, especialmente os alemães: “Éramos dois atores muito bem identificados. Unir forças traz simplicidade total para os clientes e uma capacidade de execução muito maior como empresa”, afirma.
Essa capacidade de execução se materializa em uma captação de 31 milhões de euros em dívida. Um valor alto, mas necessário: para alugar os iPhone 17 mais recentes a milhares de clientes, primeiro é preciso comprá-los. O grupo agora segmenta sua oferta para alcançar públicos distintos: Next Mobiles para o segmento premium, Mobile.club para uma proposta mais acessível e durável, e Cleaq para equipar as frotas de TI das empresas.
Esse modelo também chama a atenção de profissionais autônomos e pequenas empresas, que conseguem distribuir melhor o custo do parque tecnológico ao longo do tempo. Em vez de concentrar um gasto alto na compra dos aparelhos, a assinatura ajuda a preservar caixa, simplifica a gestão dos dispositivos e facilita a renovação do que a equipe usa no dia a dia.
Sob o capô, o recondicionamento feito na França
A fusão se impõe como o motor de uma engrenagem logística única na França. Para cumprir a promessa de Next Mobiles e Mobile.club, é preciso garantir que cada telefone alugado tenha desempenho equivalente ao de um aparelho novo. Ao contrário das plataformas de compra e venda tradicionais, em que a origem dos dispositivos às vezes é nebulosa, o grupo aposta em um circuito fechado e em rastreabilidade total.
“Compramos os produtos novos com grandes distribuidores, como a Apple. Depois, o produto passa por vários ciclos. Um primeiro cliente fica com ele por 12 ou 24 meses e, então, ele retorna para nós”, detalha Damien Morin.
Quando volta para a base, cada smartphone passa pelas mãos de especialistas para uma classificação completa do estado estético e técnico. Troca de bateria, polimento para apagar riscos, testes de desempenho: tudo é feito localmente para recolocar o aparelho em circulação. Em média, um telefone vive assim 2,6 ciclos de aluguel antes de ser definitivamente revendido no mercado de usados.
Essa abordagem atrai uma nova faixa de consumidores, movidos tanto por convicções ecológicas quanto por vantagens práticas. “Temos clientes que escolhem apenas produtos recondicionados por uma lógica de responsabilidade socioambiental. Eles estão convencidos de que é preciso evitar a fabricação de novos produtos e querem se inserir nesse modo de consumo sustentável”, observa o dirigente.
Ao controlar o fim de vida de seus terminais, o grupo transforma o smartphone em um ativo circular, prolongando sua duração muito além dos padrões habituais do mercado. Isso também reduz o desperdício eletrônico e reforça uma lógica em que reparar, reaproveitar e reintroduzir no mercado vale mais do que substituir sem necessidade.
Rumo à tecnologia como serviço global
A ambição da empresa é enorme. Embora o smartphone continue sendo o principal produto de entrada, o grupo já amplia seus horizontes: agora também é possível alugar Macs, iPads, Apple Watches e até novidades tecnológicas como o Apple Vision Pro. Essa diversificação, aliás, torna o nome atual do grupo quase restritivo demais. Para acompanhar essa virada e a expansão internacional prevista para Espanha, Portugal e Reino Unido, um grande reposicionamento de marca já está em andamento.
“Vamos manter a Cleaq separada para as empresas, mas Next Mobiles e Mobile.club vão se reunir sob uma nova marca no fim deste ano. O objetivo é ter uma plataforma mais ampla. O nome ‘Mobile’ já não representa mais bem o nosso catálogo”, revela o dirigente.
Até 2030, o grupo quer alcançar 100 milhões de euros em faturamento. Uma meta ambiciosa, sustentada por uma convicção profunda: a passagem definitiva da propriedade para o uso. Em um mundo em que a tecnologia evolui muito mais rápido do que os orçamentos, o aluguel surge como um caminho cada vez mais atraente para permanecer atualizado.
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